Exclusivo i/The New York Times
"Anjos e Demónios" estreia hoje
Publicado em 14 de Maio de 2009
Sob ameaças da Igreja, "Anjos e Demónios" estreia hoje em Portugal. Boicotes estão a fazer escola no cinema
Está aborrecido com alguma coisa? Então atire as culpas para cima dos filmes. Todos fazem isso ultimamente. A maioria das grandes produções de Hollywood, que já se estrearam ou vão estrear-se, têm alguém, algures, a gritar: "Boicotem!" Não acredita? Então siga o nosso raciocínio.
"Anjos e Demónios"? Desde a estreia mundial, a 4 de Maio em Roma, que a Sony Pictures e a Imagine Entertainment, que produziram o filme, estão na expectativa para verem se o Vaticano apela a um boicote dos católicos. Alguns líderes religiosos manifestaram preocupações acerca da forma como a história retrata a Igreja. Mas o Vaticano mostrou-se relutante em dar ainda mais publicidade ao filme. Na quarta-feira, 6 de Maio, tornou finalmente pública a sua avaliação oficial, no jornal do Vaticano, exprimindo um equilíbrio entre críticas positivas e negativas, sem mencionar qualquer boicote.
"Exterminador Implacável"? Em vários sites, espectadores chocados têm-se manifestado a favor do boicote, desde que ouviram dizer que, ao contrário dos episódios anteriores, classificados "para maiores de 17 anos", o quarto episódio da série "Exterminador Implacável", ("A Salvação", com estreia prevista para 4 de Maio em Portugal), seria classificada para maiores de 13 anos.
E "Star Trek"? Poderia não ter havido estreia se o Brian Drake levasse a sua avante. No petitiononline.com, Drake e cerca de meia centena de apoiantes avisaram a Paramount -que lançou o filme quinta-feira passada - que não estariam presentes se o estúdio não doasse parte das receitas da semana de estreia para a exploração do espaço interplanetário - "Salve o planeta; fuja dele!", sugere um site associado, o spaceordie.org.
"Tenho 40 anos e cresci a ver a série "Star Trek", disse Drake, que era maquinista e agora trabalha no Wal-Mart, perto de casa, em Gallatin, no Tennessee.
O Padre e o Amante Não há muitos anos, os boicotes estavam limitados a uma mão-cheia de filmes que faziam os possíveis por serem ofensivos. Em 1995, a Miramax Films marcou para Sexta-feira Santa a estreia nacional de "Priest", que retratava a história de um padre e do seu amante homossexual. Era inevitável que provocasse protestos. Mas o poder do online, o anonimato da internet e um crescente espírito de militância têm tornado os apelos ao boicote de filmes - por razões políticas, de classificação ou questões tão triviais como a data de lançamento - quase absurdamente rotineiros. Até "Ghosts of Girlfriends Past", uma comédia romântica com Jennifer Garner e Matthew McConaughey, foi alvo de objecções.
A produção foi o "boicote da semana", juntamente com o "X-Men Origens: Wolverine" e o filme de animação "Terra" (estreia a 5 de Novembro em Portugal) no site boycottliberalism.com. O motivo? Parece que foram as opiniões políticas de Jennifer Garner. Mas as perguntas que enviámos ao editor do site, Thomas George, ficaram sem resposta. Para os homens do marketing de Hollywood é cada vez mais difícil detectar as verdadeiras razões para as nuvens de raiva que envolvem praticamente todas as estreias de filmes."Se houver um grupo passível de se insurgir contra um filme e suficientemente numeroso para afectar as bilheteiras, tem de se fazer alguma coisa", disse Rolf Mittweg, que era presidente de distribuição e marketing do New Line Cinema quando o estúdio lançou "A Bússola Dourada", no meio de apelos ao boicote de grupos cristãos, em Dezembro de 2007. Nessa ocasião, disse Mittweg, a reacção do estúdio foi demasiado lenta. Entrevistado por telefone na semana passada, calculou que o filme, cujas vendas de bilheteira foram de 50 milhões de euros, teria rendido mais 50% mais Estados Unidos se não tivesse havido oposição organizada.
"Harry Potter" atrasado Em contrapartida, no mês passado, Jamie Foxx apresentou um pedido de desculpas no programa "The Tonight Show With Jay Leno" por alguns comentários desagradáveis acerca de Miley Cyrus. Mas já era demasiado tarde para anular os apelos ao boicote do seu mais recente filme, "The Soloist", que se estreou a 24 de Abril com receitas de bilheteira de apenas 7,3 milhões de euros no primeiro fim-de-semana. Os apelos a um contra-boicote do filme de Miley Cyrus "Hannah Montana: o filme" fizeram aparentemente poucos estragos; o filme estreou-se em grande e até à data já arrecadou mais de 50 milhões de euros.
Há quem garanta que os apelos aos boicotes podem ser ignorados porque os autores dos protestos acabam por não conseguir resistir e vêem o filme. Parece ser esse o caso de "Harry Potter e o Príncipe Misterioso" que desencadeou críticas ferozes quando a Warner Brothers adiou para Julho a sua saída, prevista para o fim de 2008.
"Foram desaparecendo progressivamente", disse, a propósito deste episódio, Emerson Spartz, fundador do mugglenet.com, a página dos fãs de Harry Potter. Spartz, que estava a discursar no Estado do Indiana, onde tinha acabado de dar a sua última aula na Universidade de Notre Dame, disse estar confiante de que os fãs iriam comparecer na próxima estreia do "Harry Potter". Mas, acrescentou, a Warner poderia ter evitado os sarilhos se tivesse falado mais cedo desse possível atraso.
Outro boicote menos sérios foi o proposto por Jeff Burton, programador de informática de Wisconsin. Ao escrever em Março no seu blogue privado, burtonia.com, apelou aos pais com filhas para evitarem os filmes da Pixar porque muitos deles ? do "Toy Story" ao "Up" a estrear-se em breve ? tinham como protagonistas personagens masculinas e relegavam para um plano muito secundário as personagens femininas. O apelo desencadeou um debate aceso na página de Jeff Burton, que provocou inclusivamente a garantia, dada por um participante, de que a Pixar Animation Studios se estava a tornar um local mais amigo das mulheres. "Era uma sátira", disse Burton. Mas, claro, ele vai ver "Up".
"Tenho cinco filhos rapazes, portanto vamos sempre ver todos os filmes da Pixar."
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