Estados Unidos

Barack Obama 365 dias depois. Afinal o Messias não desceu à terra - vídeo

por Gonçalo Venâncio e Patrícia Silva Alves, Publicado em 20 de Janeiro de 2010   
Presidente completa primeiro ano na Casa Branca com uma das mais baixas taxas de aprovação. Será que os americanos perderam a fé?
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Nas últimas semanas, Barack Obama tem sido bombardeado com a mesma pergunta: "Senhor presidente, como avalia a sua prestação até ao momento?" Na auto-avaliação, Obama mostrou não ser um homem de falsas modéstias: "Acho que mereço um sólido B+", disse em entrevista à sua celebre apoiante, Oprah Winfrey. Muito perto da excelência, portanto. Obama marca hoje o primeiro aniversário da sua Administração, mas terá razões para comemorar? Há precisamente um ano, dois milhões de pessoas acotovelaram-se no Mall, do Capitólio ao obelisco, para ouvir as dissertações sobre esperança e mudança do novo presidente americano. Obama acabava de herdar duas frentes de guerra, uma economia em colapso e o prestígio de um país pelas ruas da amargura. De Washington a Nairobi, era tido como um novo Messias. Mas, como então sublinhou um dos seus assessores mais próximos, Obama seria incapaz de "multiplicar pão ou peixes". 365 dias passados desde a investidura, Obama desce à terra e os americanos brindam-no com uma das mais baixas taxas de aprovação na história dos presidentes no final do seu primeiro ano na Casa Branca: 50%.

Será que os americanos, e o mundo, estão a perder a fé em Obama? Não necessariamente, diz Miguel Monjardino. "Durante a campanha eleitoral, o único presidente com que Obama se comparou expressamente foi Ronald Reagan e isso mostra bem como Obama se via no cargo: um transformador. É curioso que, no final do primeiro ano, Reagan estava precisamente na mesma posição nas sondagens." Reagan acabaria por ser reeleito para um segundo mandato e colocaria o seu nome na galeria dos mais influentes presidentes americanos. Talvez por isso, assinala o especialista em Relações Internacionais do Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica, "o primeiro ano de uma Administração não seja o ponto ideal para antecipar o seu lugar na história."

Bernardo Pires de Lima, investigador universitário no campo das Relações Internacionais, acredita que há duas maneiras de olhar para o primeiro ano de Obama: "Para os idealistas - aqueles que pensavam que Obama ia defender os interesses do mundo - é uma decepção. Para os realistas, e embora ainda seja cedo para aferir o impacto das suas medidas, Obama conseguiu estabilizar a economia norte-americana e extinguir o pânico nos mercados."

Pânico é, por estes dias, uma palavra que paira no espírito de muitos democratas. 2010 traz eleições intercalares para o Senado e o Partido Democrata pode perder a "super maioria liberal". E se os americanos podem até nem ter perdido a fé no seu presidente, este, pelo menos, já perdeu parte dos votos que o elegeram. Mas afinal, de onde vêm os problemas de Obama? Como diria Clinton: It's the economy stupid.

Desemprego e Défice Em valores estratosféricos para os padrões americanos (10% de desempregados; um défice recorde de 1,42 biliões de dólares, e a aumentar consecutivamente nos últimos 15 meses), continuam a ser a maior dor de cabeça da Administração. Ainda assim, justificáveis na opinião de Ricardo Reis. "Não se pode acusar Obama de falta de coragem. É verdade que o défice público escalou como consequência do combate à crise, parece-me uma opção razoável, embora preocupante", assinala o economista da Universidade de Columbia para quem a prestação de Obama "não é extraordinariamente positiva."

A reacção dos mercados tem sido "razoável" aos pacotes de salvamento da Administração, embora Ricardo Reis critique a política seguida no último ano no sector financeiro: "Tem sido uma postura de cruzar as pernas e esperar que as coisas acabem por melhorar. Todos os problemas de há dois anos continuam a estar lá. As medidas aplicadas são arbitrárias."

A debilidade das contas públicas americanas ajuda a explicar porque um dos cavalos de batalha de campanha se tornou impopular. "A reforma do sistema de saúde é muito pesada do ponto de vista fiscal e não está no topo da agenda dos americanos, mais preocupados com o desemprego e impostos. A coincidência dos custos desse sistema com a explosão do défice fragilizaram ainda mais a Administração", diz Monjardino. "Obama precisa da maioria dos votos do congresso para fazer passar os seus polémicos pacotes legislativos. E o que parecia uma facilidade, devido à maioria democrata, revelou-se precisamente o contrário" acrescenta Pires de Lima. A fé em Obama morreu dentro do seu próprio partido.

Força à oposição Para Monjardino, o grande problema de Obama - do ponto de vista doméstico - é o défice de entusiasmo no Partido Democrata: Obama deu margem de manobra política a senadores altamente impopulares e as reformas polémicas fizeram o resto. Alienaram os independentes - a sua grande base eleitoral. Adivinham-se problemas para o presidente em 2012, especialmente porque o ânimo cresce no chamado tea party movement: um movimento tradicionalmente republicano, populista, céptico em relação a Washington e que abomina impostos elevados. "Obama não foi suficientemente duro com os seus adversários e abriu um espaço que foi ocupado ou por democratas muito à esquerda ou por populistas conservadores" resume Monjardino.

Clark Kent ou Super-Homem Na arena internacional, Obama herdou os pesados custos estratégicos da Administração W. Bush. Tentou reposicionar os Estados Unidos e fê-lo, primeiro, do ponto de vista simbólico, anunciando o encerramento de Guantánamo. Nas grandes opções estratégicas, salienta-se a abertura a Teerão que não teve efeitos práticos no nuclear mas vai, para Monjardino, "continuar a provocar rupturas internas no Irão". O Iraque desapareceu do mapa, a "Guerra Justa" no Afeganistão foi intensificada e tentou acomodar as grandes potências. "Está a tentar comprar tempo e quer baixar a temperatura." Por tudo isso ganhou um prémio Nobel da Paz. Mas para Bernardo Pires de Lima, Obama tem mais de Kent do que de super-homem: "Porque um super--homem nunca se enganaria num discurso de tomada de posse."





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