Fotografia

Eis os homens mais elegantes de África

por Vanda Marques , Publicado em 19 de Janeiro de 2010   
O fotógrafo Daniele Tamagni conviveu dois anos com os dandies do Congo
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Não podem usar mais de três cores e sabem que o último botão do blazer não se abotoa. Quando vestem um casaco traçado, nunca cometem o erro de vestir um colete por baixo. Os sapatos têm de estar impecavelmente engraxados, mesmo que seja para andar em estradas de terra batida e no meio de lixo. As meias são sempre em fio da Escócia. O charuto é um acessório imprescindível e tem de estar aceso. Mas, como verdadeiros cavalheiros, só o fazem depois de pedirem autorização aos restantes. Mesmo numa zona de fumadores.

Os membros da Société des Ambianceurs et Persons Élégants, também conhecidos como Sapeurs, fazem inveja a muitos homens de negócios ou cavalheiros ingleses. Não será pela conta bancária, já que muitos passam fome para se vestirem bem, mas sim pela elegância. O que mais impressionou o fotógrafo italiano Daniele Tamagni foi o contraste entre dois mundos: a pobreza de Brazaville, a capital do Congo, e os homens que se proclamam os "mais elegantes do continente africano". "Trabalhava numa revista no Congo quando conheci o Hassan Salvador, um dos Sapeurs, e fiquei fascinado. O facto de se vestirem de forma elegante é uma maneira de se afirmarem e trazerem algo positivo para um país cheio de problemas", explica por telefone ao i, Daniele Tamagni que conviveu com os Sapeurs entre 2007 e 2008.

O fotógrafo acompanhou-os desde a escolha dos botões de punho, até ao regresso a casa, depois de se passearem pelas ruas como estrelas de cinema ou membros da casa real. Daniele esperava horas para que se arranjassem e ficava impressionado com a quantidade de roupa que tinham, apesar da falta de dinheiro. Em média um fato custa cerca de mil euros, o que num país em que o salário anual ronda os 150 dólares (cerca de 105 euros) é impressionante. Mas as roupas, usadas apenas em dias especiais ou festas, também são uma forma de rendimento. Muitos alugam-nas e pagam os fatos a prestações. Tamagni fotografou o dia-a-dia dos Sapeurs para o livro "Gentlemen of Bacongo", lançado em Novembro.

IMITAR OS EUROPEUS Tudo começou como uma moda colonialista e acabou por se transformar num símbolo de paz e independência. Quando os franceses chegaram ao Congo, no início do século XX, trouxeram a elegância e sofisticação parisiense. Mas foi em 1922, com André Grenard Matsoua, que tudo mudou. O político e militar foi o primeiro congolês a regressar de Paris vestido como um verdadeiro cavalheiro. "Os brancos inventaram estas roupas, nós trouxemos a arte", explica um dos Sapeurs. Mesmo depois da independência, nos anos 60, os congoleses continuaram a vestir-se como europeus. No entanto, entre 1972 e 1990, no antigo Zaire, os sapeurs eram mal vistos. O ditador General Mobutu chegou a proibir as roupas colonialistas, mas muitos continuaram a vestir-se assim. Os sapeurs sobreviveram a três guerras civis sem deixar de ser elegantes, sempre com o mesmo lema: "Vamos baixar as armas, trabalhar e vestir elegantemente."

Veja aqui uma reportagem sobre os Sapeurs no Congo Brazzaville:



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