O Haiti é o ponto de colisão de dois tempos - de um lado a urgência dos sobreviventes, do outro a lentidão da ajuda. O país precisa de tudo. E tudo é demasiada carga para transportar por um porto fechado, um aeroporto sobrelotado, fronteiras condicionadas e carros sem combustível. O mundo continua a mobilizar-se em angariações, mas os donativos não passam pelo buraco da agulha das vias de comunicação disponíveis. Com milhares ainda por resgatar dos escombros, as autoridades começam a ser confrontadas com outra prioridade - evitar que o país sucumba à anarquia e às pilhagens. Para muitos sobreviventes, a saída para a espera só se estanca numa torrente de violência.
"O desafio neste momento é coordenar a enxurrada de contribuições", admitiu ontem o secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, ao embarcar rumo "a uma das piores crises humanitárias de décadas". A ONU alimenta 40 mil pessoas por dia e espera aumentar esse número para um milhão nos próximos 15 dias.
Contudo, perante a dimensão da tragédia, os bens essenciais que vão chegando não chegam para nada. Há quase uma semana que os habitantes se alimentam da fome, do choque e do cheiro a morte. Pelas ruas, sucedem-se placards com a palavra "ajuda" escrita em várias línguas. São lidas por milhares via televisão, mas respondidas por poucos.
Há três milhões que continuam sem qualquer auxílio externo. Quando finalmente surge uma equipa de ajuda humanitária, traz com ela comida e distúrbios. Não há ordem possível que se sobreponha à impaciência da sede e da fome. Sucedem-se relatos de voluntários apedrejados por multidões enfurecidas. Dois elementos da ajuda humanitária da República Dominicana foram alvejados enquanto distribuíam comida. Um homem de 30 anos foi abatido a tiro no momento em que roubava produtos de um mercado. Ontem, um tanque dos bombeiros foi quase abalroado quando entrou num bairro de lata que desde terça-feira não via água potável.
"Olhe para isto. Só os mais fortes conseguem lutar por esta água. Os fracos, os doentes e os velhos, que são os que mais precisam, não têm hipótese. Passou muito tempo. Por esta altura, as coisas já deviam estar a ser bem feitas", diz Pierre Deny, citado pela Reuters. Sem segurança, os voluntários não podem trabalhar e o descontentamento das populações aumenta.
Não é apenas o desespero das populações que abala a lei e a ordem. Num país com poucas vitórias para inscrever na história recente, a prisão de gangues violentos é uma delas. Mas o esforço de pacificação de anos também caiu por terra. O terramoto devolveu às ruas os criminosos que a polícia tinha enclausurado. Três mil reclusos da Penitenciária Nacional estão agora à solta e as autoridades temem um retorno da violência a larga escala na Cité Soleil, um bairro de lata que alimenta a mitologia do Haiti com episódios de sangue, crime e cabecilhas de nome "Blade" a fazer tremer os já traumatizados sobreviventes. Desde terça-feira que fazem sentir a sua presença.
As armas usadas pelos guardas dentro da prisão servem agora os criminosos nas ruas. Ter ficado sem nada não é protecção para eventuais assaltos. "Estiveram aos tiros toda a noite passada", conta à Reuters uma residente. A polícia sabe que, perante um Estado desfeito em estilhaços, será fácil impor a lei da bala. "Temos 2000 polícias em Port-au-Prince que estão severamente afectados. E temos 3 mil bandidos que escaparam da prisão. Parece-me que isto dá uma ideia da gravidade da situação", sublinhou o presidente do Haiti, Rene Preval.
A ausência de autoridade faz a oportunidade em quem nunca sonhou ser ladrão. Honore Levy apressa-se a fugir de um supermercado em ruínas com embalagens de sabão. Servirão para vender em troca de comida e água para os seus cinco filhos. "Que escolha tenho eu?", grita no momento em que a polícia chega e dispersa os saqueadores a tiros e gás lacrimogéneo.
A Secretária de Estado norte-americana, Hillary Clinton, esteve durante algumas horas na capital para garantir apoio com propósitos estritamente humanitárias. O aeroporto de Port-au-Prince está a ser coordenado pelas tropas dos EUA e milhares de soldados chegam esta semana para reforçar a segurança. Hillary Clinton pretende levar o Parlamento haitiano a declarar o estado de emergência, dando mais poderes ao presidente para instaurar o recolher obrigatório.
Ajuda portuguesa: Cáritas, Oikos, Cruz Vermelha, AMI, Andra.
Ao todo, as Organizações Não-Governamentais portuguesas enviaram uma primeira ajuda de 77 mil euros, mas continuam a recolher donativos da população. A mobilização vem de várias frentes. Em dois dias, a PT angariou 36 mil euros através de uma linha especial. O bispo do Porto ajudou com 25 mil euros e o governo regional dos Açores entregou 100 mil à AMI, que já tem pessoas a trabalhar no Haiti.
A missão portuguesa que sábado partiu num avião C-130 da Força Área era esperada para as primeiras horas de hoje no Haiti, depois de uma escala nos Barbados. O objectivo é montar um campo para alojamento de emergência, com intervenção médica.




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