PRIMEIRO PLANO

Cristiano Ronaldo e a discussão do Orçamento

Publicado em 15 de Janeiro de 2010   
A dúvida é se Portugal aguenta tamanhos dribles e mudanças tácticas numa altura em que sofre uma das piores crises de que há memória
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Não há dia em que não se fale de uma nova candidata a namorada de Cristiano Ronaldo, da Miss Espanha à modelo italiana que acabou de chegar a Madrid. Não há semana em que não se tente vislumbrar qual o partido da oposição que se irá entender com o PS para aprovar o Orçamento do Estado. Ronaldo é muito mais assediado por supostas namoradas que as oposições pelo governo de José Sócrates. Mas convenhamos que o futebolista tem argumentos que faltam ao primeiro-ministro de Portugal. A começar pela situação financeira e pela gestão da carreira.

Ontem assistiu-se a uma catadupa de reuniões dos ministros Teixeira dos Santos e Jorge Lacão com os representantes dos partidos da oposição parlamentar. Mesmo admitindo que se trata de encontros exploratórios, que darão lugar a novas conversas, não deixa de surpreender o frenesim com que se marcaram encontros com quatro diferentes delegações, à razão de uma por hora, das 4 às 7 da noite.

Da mesma maneira que Cristiano não pode namorar ao mesmo tempo com várias namoradas - a não ser que: a) todas elas julguem que têm o exclusivo, desconhecendo a existência das rivais, b) não se importem com a acumulação, c) tudo não passe de um flirt passageiro -, também Sócrates dificilmente se poderá entender com Manuela Ferreira Leite, Paulo Portas, Jerónimo de Sousa e Francisco Louçã. Mesmo que o esforço seja hercúleo, parece impossível compatibilizar o programa económico do PS com os de partidos como o PCP ou o BE.

Com a dívida pública a chegar aos 132,5 mil milhões de euros, já a ultrapassar os 80% do produto interno bruto - e as agências internacionais a ameaçarem cortar o rating ao país -, há razões para desconfiar que a intenção do primeiro-ministro seja continuar a gastar mais do que o país tem e a endividar-se externamente.

José Sócrates tem todo o direito a recusar-se a ficar amarrado a uma relação séria e duradoura para quatro anos, como foi proposto pelo líder parlamentar do PSD, José Pedro Aguiar-Branco. Pode procurar apenas manter um arranjinho de ocasião que sirva para deixar passar este Orçamento.

Aceitemos que o PS - como poderá acontecer com Ronaldo em relação às diversas raparigas que se acotovelam por um lugar ao lado da estrela - queira namoriscar com vários partidos em simultâneo. Aceitemos ainda que o PS possa ir trocando de apoio no Parlamento, à esquerda e à direita, consoante as conveniências de momento.

A dúvida é se Portugal aguenta tamanhos dribles e mudanças tácticas numa altura em que sofre uma das piores crises de que há memória. Ou se os portugueses aceitarão como sério e credível um governo minoritário que está disposto a variar de parceiro de acordo com as necessidades, num sistema de navegação à vista. Depois de todas as fintas de Sócrates, pode acontecer que os espectadores apupem o jogador e exijam a sua rápida substituição.

Jornalista

Escreve à sexta-feira


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