Sismo no Haiti
Água, comida e medicamentos são os bens mais urgentes
por Enrique Pinto-Coelho, Publicado em 15 de Janeiro de 2010
Doações milionárias, equipas de resgate, sismólogos, cães pisteiros, toneladas de material humanitário. O país precisa de tudo, a ajuda chega a conta-gotas. Um dia depois do terramoto, o cenário é de dor e destruição
"Devido ao terramoto ocorrido na zona, a sua chamada não pode ser atendida neste momento. Por favor, tente mais tarde." A mensagem automática em inglês - uma língua estrangeira no Haiti, onde se fala crioulo e francês - é o primeiro de uma longa lista de obstáculos para quem tenta comunicar com a parte oriental da ilha La Española, devastada na terça-feira por um sismo de magnitude sete na escala de Richter.
No dia seguinte, os sinais da destruição, os dramas humanos e as cenas de pilhagem eram omnipresentes. Nas ruas de Port-au-Prince, onde dorme a maior parte dos 4 milhões de habitantes da capital haitiana - uns porque ficaram sem casa, outros por medo das mais de 20 réplicas que sacudiram a cidade durante a noite -, os vivos misturam-se com os cadáveres empilhados nos passeios.
Milhares de pessoas esperam pela ajuda humanitária que demora a chegar porque as estradas, os aeroportos e todas as outras vias para distribuir os bens essenciais estão destruídas ou defrontam sérias dificuldades. Durante a jornada, o espaço aéreo haitiano entrou em colapso. Chegou a haver 11 aviões sem autorização para aterrar, o que levou os EUA a interromper os voos carregados com geradores, purificadores e outros materiais considerados prioritários.
Há trabalhadores da Nações Unidas (ONU) e de organizações não governamentais (ONG) bloqueados na República Dominicana à espera de uma oportunidade para passar a fronteira. "Precisamos de água, alimentos e medicamentos", reclama o primeiro-ministro haitiano, Jean-Max Bellerive. "Há muitos feridos e muitas pessoas que não podem ser resgatas dos escombros."
Muitas pessoas desesperadas usam as mãos e ferramentas rudimentares para tentar descobrir sobreviventes ou enterrar os mortos. Apesar da falta de segurança e do caos instalado no país mais pobre do continente, os primeiros carregamentos começaram a ser distribuídos ontem.
China, Reino Unido e França, a antiga metrópole, foram alguns dos países que reagiram com maior rapidez. Alguns envios incluem sismólogos, cães pisteiros e, no caso da Islândia, três toneladas de água - o bem mais precioso. "O dinheiro não vale nada neste momento, a moeda é a água", declarou um trabalhador de uma agência humanitária à "Reuters".
A comunidade internacional multiplicou ontem as ofertas de ajuda e os apelos à doação. "[Os haitianos] não vão ser abandonados. Não vão ser esquecidos", prometeu o presidente norte-americano, Barack Obama. A Casa Branca ofereceu 69 milhões de euros (a quantia mais generosa de sempre) de ajuda imediata e recrutou dois ex--presidentes rivais - Bill Clinton e George W. Bush - para angariarem fundos.
A União Europeia (UE) destinou 3 milhões de euros, mas a nova chefe da diplomacia comunitária, Catherine Ashton, adiou para segunda-feira a reunião que definirá a estratégia de ajuda a médio prazo. O presidente francês, Nicolas Sarkozy, propôs uma "grande conferência" internacional para reconstruir o Haiti. Espanha - o país que ocupa a presidência rotativa da UE - anunciou que os aviões que está a enviar poderão ser usados para transportar os cidadãos comunitários que solicitem a extradição.
Em Portugal, Cavaco Silva pediu uma mobilização "mundial" para suavizar a catástrofe. "Tendo em conta a população do Haiti, é difícil encontrar uma tragédia de dimensão tão grande ao longo dos séculos", sublinhou.
O balanço divulgado pela Cruz Vermelha do Haiti à hora de fecho desta edição oscilava entre 45 mil e 50 mil mortos. O número de três milhões de afectados divulgado na véspera por este organismo não foi modificado.
A ONU aumentou para 36 o número de funcionários mortos no país caribenho, onde emprega 11 mil pessoas - a maioria soldados da força de pacificação, MINUSTAH. O organismo também confirmou 73 feridos e 188 desaparecidos. Os hospitais de Port-auPrince estão sepultados pelo entulho ou lotados. O centro hospitalar operacional mais próximo, o Hôpital Immaculée Conception, está a cem quilómetros da capital.
É o salve-se quem puder na primeira república negra da América. Após consguir a independência de França, em 1804, o Haiti já sofreu todo o tipo de desastres naturais - sobretudo furacões e pragas - e provocados. A desflorestação, por exemplo, arrasou 98% das árvores do país.
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