Terramoto

60 segundos com impacto de 30 bombas atómicas

por Gonçalo Venâncio, Publicado em 14 de Janeiro de 2010   
A ajuda internacional começa a chegar ao Haiti de onde chegam os primeiros relatos na primeira pessoa em português.
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Terça-feira, 16 horas e 53 minutos em Port-au-Prince: a terra treme pela primeira vez na capital do Haiti. Durante 60 segundos, um sismo de 7.0 na escala de Richter - com o epicentro localizado a 16 quilómetros a sudoeste da capital - liberta energia equivalente a pelo menos 30 bombas atómicas, diz um geofísico João Willy Rosa, da Universidade de Brasília. Até as estações sísmicas portuguesas registaram a violência do abalo. Seguem-se réplicas, dezenas de réplicas. Ao todo, são contabilizados 35 abalos pelos serviços sismográficos americanos, com magnitudes no intervalo de 4 a 5 na mesma escala.

É Hiroshima no calor tropical do Caribe. Casas, escolas, hospitais, penitenciárias, o parlamento ou até o palácio presidencial de joelhos. Não sobrou praticamente nada naquele que já é um dos países mais pobres do mundo.

"Inimaginável", confessou o presidente do país, Rene Preval. "Há um série de escolas com muita gente morta. Todos os hospitais estão carregados de gente. É uma catástrofe", prosseguiu o o chefe de Estado relatando a sua saída do parlamento, entre corpos prostrados no chão e gritos abafados dos que sobrevivem debaixo de escombros.

"É o fim do mundo" - gritam duas haitianas num vídeo colocado no Youtube, que mostra Port-au-Prince imersa numa nuvem de pó nos instantes seguintes ao terramoto. Profundamente crentes, os haitianos acumulam-se em igrejas e rezam a noite inteira. Joseph Serge Miot, o arcebispo católico da capital é declarado morto. E muitos já não escondem o desespero: "Parece que Deus já não olha por esta gente", lê-se no blogue "The Live Say", alimentado por uma família americana a trabalhar em regime de voluntariado no Haiti.

No país também há portugueses, "uma dúzia" como avançou o embaixador português em Havana. No total são quinze e até ao início da noite cinco ainda não tinham contactado os serviços consulares portugueses na região.

Ainda não há nenhuma confirmação oficial do número de vítimas. A dimensão da tragédia pode bem estar "para lá dos 100 mil mortos", sugeriu o primeiro-ministro Jean-Max Bellerive. Na opinião dos especialistas internacionais, esta é a previsão menos pessimista: a conjugação de vários factores como a proximidade do epicentro à capital, a elevada densidade populacional de Port-au-Prince (quatro milhões de habitantes na zona metropolitana) e a debilidade das construções - pode fazer com que o número de vítimas dispare para meio milhão.

A Cruz Vermelha Internacional fala em pelo menos três milhões de haitianos afectados pelo terramoto e as próximas 48 horas serão decisivas para evitar a contagem de mais corpos. No mais pobre país do hemisfério ocidental, não há meios para iniciar uma operação de resgate com cabeça, tronco e membros. Por isso o Facebook, o Twitter e o Youtube foram as plataformas escolhidas por milhares de haitianos para apelar por ajuda à comunidade internacional.

Mais tarde, todo o pessoal diplomático haitiano faria o mesmo. De Caracas a Washington, os líderes internacionais multiplicaram-se em intervenções onde a nota dominante foi a solidariedade e o choque. Morreram capacetes azuis brasileiros, chineses, jordanos - e há espanhóis e franceses desaparecidos.

As palavras de Barack Obama reflectem o momento: "Este é o tempo em que somos forçados a lembrar a humanidade que partilhamos."

Ajuda a caminho Por despacho presidencial, oito Boeing 747 e 737 americanos seguiam ontem a caminho do Haiti com bens alimentares, material de resgate e especialistas em vários campos de actuação. Para além dos Estados Unidos, Venezuela e Reino Unido são os países que estão a acelerar o ritmo de auxilio ao governo de Port-au-Prince.

Em Washington, Barack Obama referiu-se ao terramoto como um desastre "cruel e incompreensível", prometendo "um esforço coordenado e agressivo" para salvar vidas. Às costas do Haiti deverão chegar nas próximas horas o porta-aviões USS Vincent e outros navios de menor porte, avançou o Departamento de Defesa que não exclui a possibilidade de enviar militares para o terreno. Douglas Fraser, general responsável pelas actividades militares na América Latina, disse estar a "estudar seriamente" o reforço da missão das Nações Unidas com o objectivo de garantir a segurança num país marcado pela pobreza radical e pela violência sectária.

As agências de ajuda internacional também já estão do terreno e foram despachadas 100 toneladas de "refeições prontas a comer" pelo Programa Alimentar Mundial. As Nações Unidas libertaram 10 milhões de euros em fundos de emergência, a União Europeia 4,4 milhões e o Banco Mundial 100 milhões.

Tudo para evitar que o terramoto no Haiti ganhe o título de maior catástrofe natural do século, depois de um tsunami ter varrido a ilha de Sumatra, Indonésia, provocando 227 mil mortos em 2004.


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