Cinema

"Onde Vivem Os Monstros". Oito frases para escrever uma obra-prima - vídeo

por Joana Stichini Vilela, Publicado em 07 de Janeiro de 2010   
O autor Maurice Sendak revolucionou a literatura para crianças com um álbum polémico em que texto e imagem funcionam como as notas de uma monumental sinfonia. A adaptação chega hoje ao cinema pela mão de Spike Jonze
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Oito frases. Menos de 350 palavras. Pouco mais de 1750 caracteres distribuídos por 48 páginas. Para escrever aquela que é considerada uma das obras-primas da literatura para crianças, Maurice Sendak precisou de um terço do texto que leitor vê neste artigo.

O segredo de "Onde Vivem Os Monstros" - porque só podia haver um - está nas 18 ilustrações, e na musicalidade, e até na forma como o texto aparece arrumado na página. Afinal, este não é um romance ou um livro de banda-desenhada; é sim um dos mais bem conseguidos álbuns de sempre, um género em que todos estes elementos concorrem para contar uma história - sem redundâncias, sublinha a coordenadora da pós-graduação em Livro Infantil da Universidade Católica, Dora Batalim.

"Ele tem um domínio perfeito do que o texto e a palavra dizem. Pode escrever pouco e dizer muitas mais coisas", reforça a professora. Depois, cada palavra tem um peso. "É uma espécie de peça musical. Curtíssima, mas com notas exactas."

Sendak terá escrito o livro para ser lido em voz alta. "Ouvi-lo em inglês é fabuloso", assegura. E até a forma como as palavras estão distribuídas pelas páginas ajuda à leitura. A viagem do protagonista Max até à terra das Coisas Selvagens conta-se numa única frase; a mancha gráfica estende-se por 10 páginas.

Ainda hoje, passados quase 50 anos do lançamento da obra, o autor recorda um confronto com os editores. Todos queriam que trocasse a palavra "quente" por "morno", referindo-se ao jantar de Max. Sendak fez finca-pé. "Morno não queima a língua. Há qualquer coisa de perigoso na palavra 'quente'", justificou à revista "Newsweek". "'Quente' são os sarilhos em que nos podemos meter. Eu ganhei."

Polémica Lançado na década de 60, "Onde Vivem os Monstros" foi uma obra revolucionária, mas também muito controversa. Chegou a ser banida de várias bibliotecas. Em 1969, o psicólogo Bruno Bettelheim exortou aos pais: mantenham os vossos filhos longe desse livro, é perigoso (mais tarde, reconheceria que nunca o lera).

Max grita com a mãe, a mãe manda-o para o quarto sem jantar. Inédito no mundo da edição, demasiado familiar para Sendak, que crescera em Brooklin numa família de imigrantes judeus polacos, com uma mãe atormentada por problemas psicológicos.

Até então, os livros eram uma forma de as crianças aprenderem regras sociais, explica Dora Batalim. "Sendak achou que serviam para mostrar aquilo que a criança sente, pensa e é, com todas as suas ambiguidades", explica. "Se não há livros de histórias a falar disto então não servem para nada porque não falam da vida real."

Sozinho no quarto, Max projecta a raiva num mundo de fantasia povoado por monstros - os tios maternos vindos da velha Polónia, que, com dentes podres e pêlos no nariz, queriam sempre um beijinho, explicaria o autor. Sozinho, resolve os seus conflitos e não deixa que a fúria tome conta dele - ou que os monstros o comam. E regressa a casa de uma viagem de um ano a tempo de jantar.

 

Se gosta de álbuns, vai gostar de...

 

•  “Frederico”, Leo Lionni (Kalandraka)
•  “Quando a Mãe Grita”, Jutta Bauer (Gatafunho)
•  “O Rapaz dos Hipopótamos”, Stephen Kellog (Livros Horizonte)
•  “Um Pesadelo no Meu Armário”, Mercer Mayer (Kalandraka)
•  “Eu Nunca na Vida Comerei Tomate”, Lauren Child (Oficina do Livro)
•  “Pê de Pai”, Isabel Minhós Martins e Bernardo Carvalho (Planeta Tangerina)
 

Eggers: o autor que tinha tudo para correr mal... E deu em prodígio

É cada vez mais difícil resumir em poucas palavras o currículo do norte-americano Dave Eggers. Aos 39 anos, o co-argumentista de “O Sítio das Coisas Selvagens” e autor de bestsellers como “O Que é o Quê?” (Casa das Letras), não pára de acumular projectos e distinções: finalista do Prémio Pulitzer para não-ficção (2000); finalista do Prémio do National Book Critics Circle na categoria de ficção (2006); vencedor do Prémio TED (2008) pela criação de laboratórios de escrita criativa para jovens carenciados, aposta na escola pública e potencial de liderança. “Visionário”, sintetizou a revista “Utne Reade”, um dos “50 que estão a mudar o mundo”. Um psicólogo talvez usasse outra palavra: “resiliência”, a capacidade de superar adversidades.
Eggers tinha apenas 21 anos quando viu o pai e a mãe sucumbirem ao cancro com uma diferença de 32 dias. Tinha dois irmãos mais velhos, mas foi ele que ficou a tomar conta do mais pequeno, Toph, de oito anos. Deixou a faculdade no Illinois. Mudaram-se para a Califórnia. Sustentavam-se com o dinheiro que os pais lhes tinham deixado e com o que ele ganhava em trabalhos temporários. Quase dez anos depois, lançava o relato na primeira pessoa sobre a experiência de criar o irmão, “A Heartbreaking Work of Staggering Genius” (2000), considerado pela revista “Time“ o melhor livro do ano. A bonança não duraria muito. Pouco depois, a irmã acusava-o de ficar com todos os créditos pela educação de Toph, para depois pedir desculpa. Em 2002, matava-se.
Eggers nunca parou. Dedicou-se  à publicação de livros e das revistas de culto, “McSweeney’s” e “Believer”. Este ano lançou uma edição única de um jornal diário que esgotou de imediato. Pelo caminho adaptou a obra de Sendak ao cinema e escreveu um romance inspirado nela, desde Novembro nas livrarias.


 “O Sítio das Coisas Selvagens”, Dave Eggers, Livros Quetzal, €16,95

 



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