A discussão vai longa, os erros dos árbitros vão-se acumulando (e continuarão a acumular-se), mas desta vez a iniciativa do jornalista Rui Santos chegou à Assembleia da República. Sete mil signatários clamam pela introdução de tecnologias no futebol para minimizar erros penalizantes para jogadores, equipas, clubes, federações.
A intenção é naturalmente boa e seria no mínimo tonto ignorar a discussão. Que é na verdade o que têm feito a FIFA, a UEFA e o International Board. A petição entregue a Jaime Gama tem a vantagem de colocar o assunto na ordem do dia. Pouco mais efeitos se verão.
A discussão: um fórum que escutei hoje na TSF trouxe à evidência o pimeiro dos factores que devemos ponderar: a clubite ultrapassa a racionalidade. A questão em debate era a tecnologia – um ouvinte queria Olegário Benquerença com a PJ a porta do balneário depois do Benfica-Nacional; outro dizia que meio país (fez mal as contas aos seis milhões...) anda desvairado porque o Benfica joga bem. Ou seja, nem todos quiseram discutir os chips, os videos, os olhos de falcão.
Pedro Henriques, árbitro, foi ponderado: apelou à utilização do video-árbitro, sistema que permitisse rever uma jogada em caso de dúvida. E apenas em casos de penálti, fora de jogo ou expulsão.
É a posição que parece fazer mais sentido. Ainda assim fica a pergunta: quantos lances estão vistos, revistos e repisados por todos os ângulos televisivos e informáticos e merecem unanimidade na sua avaliação? OK, a mão de Thierry Henry que colocou a França no Mundial foi evidente e é chocante. Mas quantos milhares de situações dúbias sobram? Em que situações se aplicaria a videovigilância? As equipas teriam limite de pedidos? E se uma que já não possa apelar sofre um golo com a mão no último minuto sem o árbitro ver, não é injusto na mesma?
Depois há a questão do tempo: os espectadores no estádio e em casa vêem filmagem da cabina do quarto árbitro e assiste à decisão? Ou entram em campo as cheer leaders, outra ridícula importação dos Estados Unidos?
Finalmente, o essencial: a democraticidade do futebol. Não é por acaso que se tornou desde o berço o desporto mais popular do mundo. É porque se joga sob quase todas as condições atmosféricas, em qualquer bocadinho de terreno, com chuteiras ou descalço, pedras e paus podem fazer de baliza e meias rotas de bola. O segredo: as regras são as mesmas – poucas, simples e universais (na rua não usávamos o fora-de-jogo, pronto...)
Introduzir teconologia só seria possível em provas internacionais e (eventualmente) nos campeonatos profissionais de alguns países do primeiro e do segundo mundo. E o fosso entre ricos e pobres, que já vai tão grande, acentuar-se-ia até ao limite de tornar o futebol um espectáculo de elite ao qual só alguns desportistas poderiam ter acesso. Chama-se a isso matar o futebol.
Já faltou mais, agora que para os miúdos o jogarem já precisam de ter pais que possam pagar 40 ou 50 euros por mês numa escola fina...




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