Música

A música clássica tem concerto? Sim, Pictures Reframed é a solução

Publicado em 06 de Janeiro de 2010   
Viciado em música, o humorista José de Pina foi a Colónia ver o concerto "mais inovador do ano"
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Há vícios terríveis que nos fazem perder a cabeça. E não falo de droga, no meu caso é a música. Como viciado, e apesar de não ser um expert, resolvi ir a Colónia assistir ao concerto de encerramento da digressão americana e europeia de Pictures Reframed. Porquê? Porque não quis perder o acontecimento mais original e inovador da música clássica de 2009.

E ainda bem que o meu vício é a música, senão, em vez de ir a Colónia teria ido à Colômbia. Colónia, tal como outras cidades alemãs que foram destruídas na Segunda Guerra Mundial, foi obrigada a renascer fazendo conviver o património histórico com a modernidade. A magnífica catedral é o símbolo dessa relação. Em 2007, o artista plástico Gerhard Richter criou um vitral para substituir o original que foi destruído durante a Segunda Guerra Mundial. O resultado é brilhante. Utilizando uma das imagens mais simbólicas dos tempos actuais, o pixel, Richter fez a simbiose entre o antigo (neste caso o gótico) e o contemporâneo. Em Lisboa parece que vamos ter uma igreja em forma de Caravela (no Alto do Restelo, em Lisboa). É caso para dar cada vez mais razão aos que dizem que um dos problemas de Portugal foi ter passado ao lado da Segunda Guerra Mundial. Enfim, cada país tem a destruição que merece, uns tiveram uma guerra mundial, nós tivemos Salazar.

Da Rússia, com amor Colónia, e voltando à música, também é a cidade do célebre estúdio de som da WDR (Westdeutscher Rundfunk), onde a partir de 1952 se deu início à chamada música electrónica de vanguarda. Ligeti, Stockhausen foram dois dos nomes mais importantes a gravarem lá as suas obras inaugurais.

Foi neste estimulante enquadramento que decorreu, no final de Dezembro, o 18.o e último concerto de Pictures Reframed. Projecto feito a partir da difícil obra para piano "Pictures at an Exhibitions", do compositor russo Modest Mussorgsky. O norueguês Leif Ove Andsnes, um dos grandes pianistas da actualidade, desafiou o artista multimédia e performer sul-africano Robin Rhode para criar uma visão contemporânea dos temas dos quadros de Victor Hartman em que Mussorgsky se tinha baseado. Cá está, voltámos aos vitrais de Richter, duas formas de arte, uma clássica e a outra contempôranea de vanguarda, aliam-se para criar algo de novo. A Kolner Philharmonie (ao lado da catedral) é uma sala com excelente acústica e com uma disposição em anfiteatro que proporciona a todos uma óptima visão. Seguiram-se 90 minutos de "sound and vision".

Tudo começou com duas pequenas peças de Mussorgsky: "Memories of Childhood", seguindo-se um pequeno vídeo que introduziu as "Kinderszenen de Schumann", que foram tocadas quase na obscuridade, apenas com pequenos e subtis efeitos de luz sobre painéis pintados a spray por Robin Rhode. Seguiu-se "Was Wird", uma obra encomendada ao compositor austríaco Thomas Larcher para este espectáculo. "Was Wird" aborda também o tema da infância e dois belíssimos vídeos de Robin Rhode, com várias técnicas de animação e imagem real, acompanharam a audição. A fechar, "Pictures at an Exhibitions" numa grande interpretação pianística. Destaque para o vídeo/quadro Piano de Giz ("Limoges - Le Marché") e para o quadro final - "The Great Gate of Kiev" -, onde a interpretação emocional de Andsnes, juntamente com as imagens de um piano a ser lentamente submergido por uma torrente de água, nos transporta para um mundo surreal que termina com imagens subaquáticas do piano "assassinado" - segundo palavras de Robin Rhode. Grande momento. Fim de espectáculo. Leif Ove Andsnes vem quatro ou cinco vezes agradecer, mas não há encore, nem poderia haver, o piano já tinha morrido!

Crise clássica Afinal, isto foi um concerto de música clássica? Qual o interesse desta experiência multimédia? Nos últimos anos, o número de espectadores de música clássica em todo o mundo diminuiu. O público está a envelhecer. O mercado está saturado e esgotado. Quantos pianistas nestes últimos dez anos já gravaram as sonatas de Beethoven? Quantas gravações existem de concertos de Mozart e Rachmaninov? Quem nunca gravou Bach que levante o braço! É na música ao vivo que está a solução da crise, veja-se o caso da pop e do jazz. Mas para isso, o tradicional concerto clássico de sala não pode continuar a existir. Não podemos ir a um concerto como se fôssemos a um museu (com a agravante de que grande parte do público são peças desse museu, mas da secção de paleontologia). A ópera já há muito que se modernizou com encenações contemporâneas. Já se provou que os heróis de Wagner não precisam de andar sempre de capacete com cornos. Nos últimos anos, há cada vez mais instrumentistas e cantoras com tais talentos que, tanto podem ser capa da revista "Gramophone" como da "Playboy, o que, apesar de positivo, não é suficiente. O projecto Pictures Reframed é por isso, quanto a mim, uma fabulosa tentativa de renovar o concerto clássico, tornando-o algo de especial e diferente. Só assim se ganham novos públicos. A mim fez-me ir a Colónia! Projecto tanto mais importante por ter sido criado, não por artistas em início de carreira em busca de notoriedade, mas por dois artistas de topo mundial nas suas respectivas áreas que não precisavam do risco desta iniciativa para nada. É apenas o gosto de fazer coisas novas e é isso que tem faltado na música clássica. Agora estou de ressaca!


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