Fuga de Peniche: Jerónimo de Sousa critica "branqueamento do fascismo"

Publicado em 03 de Janeiro de 2010   
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É “um imperativo” relembrar a fuga de Álvaro Cunhal e outros presos políticos do Forte de Peniche, numa altura em que “assistimos a uma poderosa operação de branqueamento do fascismo” disse hoje Jerónimo de Sousa.

“Relembrar a resistência anti-fascista enquanto momento maior da história da luta do nosso partido e do nosso povo é uma necessidade cada vez mais imperiosa” afirmou o líder do PCP nas comemorações do 50.º aniversário da fuga de Peniche que hoje levaram à vila piscatória centenas de militantes.

“E tanto assim é quanto assistimos,hoje, a uma poderosa operação de branqueamento do fascismo, através da qual os historiadores do sistema negam a existência do regime fascista em Portugal” acrescentou Jerónimo de Sousa.

Uma opinião partilhada por alguns dos ex-presos políticos que protagonizaram a fuga de 03 de Janeiro de 1960 e que visitaram o Forte no âmbito das comemorações organizadas pelo PCP. Joaquim Gomes recordou que "no tempo do fascismo, a PIDE (polícia política) inventou que tinha sido com a ajuda de um submarino soviético, desvalorizando o papel do partido e o nosso”.

“E já depois do 25 de Abril esteve muito tempo junto ao parlatório um retrato de Mário Soares que nunca esteve em Peniche” acrescenta, coadjuvado por Jaime Serra que acusa o ex-presidente da República de “tentar destruir tudo o que levou ao 25 de Abril”.

Joaquim Gomes, Jaime Serra e Carlos Costa, três dos dirigentes do PCP que se evadiram naquela data, recordaram hoje a fuga que começou a ser preparada um ano antes e que contou com a participação de um soldado da Guarda Nacional Republicana.

No antigo recreio dos presos, Joaquim Gomes recordou a primeira conversa tida com Álvaro Cunhal e Jaime Serra, para “analisarmos se seria possível fugir e, depois de pensarmos durante dois ou três dias, dizermos uns aos outros as conclusões a que havíamos chegado”.

Ao fim de três dias “todos tínhamos chegado à mesma conclusão”, recorda Joaquim Gomes: “a de que era essencial termos ajuda de um GNR”.

Jorge Alves, um agente insatisfeito por não progredir na carreira, acabou por ser cúmplice dos prisioneiros no plano que arrancou ao sinal de um carro estacionado junto ao forte, com o porta-bagagens aberto indicando que nas proximidades estavam outras viaturas preparadas para levar os prisioneiros. “Ele levou cada um de nós debaixo do capote de oleado, para não seremos vistos pelos guardas prisionais”, lembra.

Cinquenta anos depois da fuga, Joaquim Gomes recorda que toda a comunicação com o exterior foi feita através de mensagens em código inscritas em mortalhas de enrolar tabaco, com tais medidas de segurança que “ainda hoje tenho medo de as revelar”.

Em tarde de memórias, Eugénia Cunhal, irmã de Álvaro Cunhal recordou à Lusa as visitas efectuadas ao irmão durante os anos de cativeiro, admitindo só ter sabido da fuga “um dia depois, por outros camaradas”.

A solidariedade com os presos políticos do Forte de Peniche foi uma das marcas das comemorações em que participaram ex-prisioneiros de outras prisões políticas. Maria da Piedade, uma ex-prisioneira de Caxias veio expressamente de Baleizão para recordar que “estava ao Lado de Catarina Eufémia quando ela foi morta” e “meses depois fui presa”.

Histórias de resistentes que acreditam que “a luta contra o fascismo nunca mais pode ser esquecida” e que participaram em Peniche numa marcha pelas mesmas ruas percorridas em 1960 pelos evadidos, entoando palavras de ordem.

As comemorações terminaram no auditório municipal onde o PCP homenageou publicamente os dez protagonistas da “fuga histórica: Álvaro Cunhal, Carlos Costa, Francisco Miguel, Francisco Martins Rodrigues, Guilherme Carvalho, Jaime Serra, Joaquim Gomes, José Carlos, Pedro Soares e Rogério Carvalho.



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