Exclusivo i Fernando Pessoa: Shakespeare, dramaturgo invisível

por Mariana Gray de Castro, Publicado em 30 de Dezembro de 2009   
O último texto que o i publicou de Fernando Pessoa. Foram publicados 11 inéditos nas últimas semanas
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O texto inédito que hoje se apresenta destina-se a um prefácio à tradução da obra completa de Shakespeare que Pessoa ambicionou fazer e publicar. Revela bem os aspectos do dramaturgo que mais o fascinaram: a sua vida, a sua fama, a natureza da sua obra e o problema da autoria da mesma.

Para Pessoa, Shakespeare é um poeta dramático cujo génio consiste na transformação do teatro convencional, de "enredo e acção", numa "dramaturgia de almas e poesia". Nesta avaliação, subscreve a visão romântica de Shakespeare, representada por leitores como Goethe, Coleridge e o crítico mais tardio J. M. Robertson. Escreve "ex" (para "excellent", em inglês) ao lado das seguintes palavras de Robertson sobre Shakespeare: "O génio necessário [à poesia dramática] consiste, essencialmente, no poder de conceber ou criar o que sentimos serem personalidades vivas; de entrar em qualquer tipo de alma."1 A heteronímia, que Pessoa descreve como um "drama em gente" e compara continuamente com a arte de Shakespeare, é profundamente influenciada pela sua avaliação do dramaturgo.

Segundo a visão romântica de Shakespeare, o "poeta-camaleão" (a imagem é de Keats) que cria outras almas fica, no processo, desprovido de qualquer identidade própria ("the poet has none, no identity")2. Pessoa apropria-se desta ideia para a sua despersonalização heteronímica, escrevendo num poema: "Sou vário e não sou eu."3 A geração de escritores modernistas à qual pertence coloca a invisibilidade autoral, quase sempre representada pelo exemplo de Shakespeare, no centro da sua arte, tanto na teoria como na prática: Joyce visa ser tão invisível quanto "o Deus da criação"4, uma biografia de Eliot tem como título "The Invisible Poet"5, e o heterónimo Álvaro de Campos, em "Notas para a Recordacão do Meu Mestre Caeiro", informa-nos de que "Fernando Pessoa não existe, propriamente falando".

A aparente invisibilidade de Shakespeare gerou o "chamado problema shakespeareano", ou a teoria de que a sua obra terá sido redigida por outrem. Shakespeare é duplamente invisível porque sabemos pouco da sua vida: daí a sua semelhança com o "caso Homero". O problema da autoria da obra de Shakespeare, assim como a sua natureza, oferece a Pessoa um valioso espelho para a reflexão da problemática da heteronímia. Mariana Gray de Castro, King's College London


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