Os mistérios da caixa silenciosa

por André Macedo, Publicado em 30 de Dezembro de 2009   
A Caixa Geral de Depósitos vendeu 3% da Zon a Isabel dos Santos. Vendeu muito mais barato do que tinha comprado. Alguém se explica?
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Isabel dos Santos não é apenas uma gestora, é um conglomerado de empresas, uma mina de ouro e diamantes regados a petróleo. Sabe-se que a filha do presidente angolano tem muito jeito para os negócios. O último que fez - e que ainda não está concretizado - foi a compra de 10% da Zon. Desta fatia, 3% foram comprados à Caixa Geral de Depósitos.

Alguma coisa de errado até aqui? A eterna discussão sobre as fontes de financiamento de Isabel dos Santos é isso mesmo: eterna. De um lado estão os que acham escandalosa a capacidade financeira da filha de um político de um país pobre (mas rico em petróleo e diamantes). Do outro lado estão os que pensam ser mais pragmático olhar para a vida como ela é: Isabel dos Santos está a investir em Portugal (Galp, BPI, Zon e muitas outras pequenas e médias empresas), em vez de desviar os seus interesses para outros países que também oferecem negócios lucrativos.

Ora bem, o primeiro ponto a sublinhar é o seguinte: a ligação de Isabel dos Santos a Portugal terá tanto de político como de material. Se por um lado é culturalmente mais fácil navegar nas águas portuguesas, por outro o peso accionista que consegue com investimentos relativamente pequenos é também um argumento importante. Com o mesmo dinheiro, a empresária seria apenas uma modesta accionista de uma grande companhia internacional. Não teria a mesma capacidade de decisão e de influência. Em Portugal não é assim.

Fernando Ulrich (BPI), Ferreira de Oliveira (Galp) e agora Rodrigo Costa (Zon) sabem que tem de contar sempre com os votos de Isabel dos Santos à mesa de negociações. Não é uma questão de cavalheirismo, é o músculo financeiro a impor as regras do jogo. Acresce que o potencial de negócios em Angola também aconselha que a relação seja fértil. Se Portugal é um mercado maduro, Angola tem muitas oportunidades por desbravar. E santos da casa fazem milagres.

Pois é: os interesses em Angola. Terão sido os legítimos desejos de aproveitar estas oportunidades que levaram a Caixa a vender 3% da Zon a Isabel dos Santos por um preço muito inferior ao que tinha pago em Maio de 2007? Nessa altura, a CGD comprou 10% da Zon (na altura, PTM) ao Barclays por 12 euros por acção; agora vendeu por pouco mais de 5 euros. É verdade, a cotação actual é mais baixa e a CGD não comprou toda a sua participação a 12 euros: uma parte recebeu-a através do spin off da PT e a outra foi pescada no mercado. Também é verdade que, pelo caminho, recebeu dividendos, o que ajuda a compensar as perdas. Será isso que justifica o desconto?

As dúvidas, como se vê, são muitas. Exigem justificações públicas ao banco público. Atacar a falta de transparência de Luanda pode ajudar a apaziguar as consciências nacionais. No entanto, em Lisboa também há - embora noutra escala -, hábitos antigos que não ajudam o país; só distorcem a concorrência e talvez prejudiquem os contribuintes.


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