Demografia
Explosão demográfica. África ultrapassa barreira de mil milhões de pessoas
Publicado em 30 de Dezembro de 2009
Especialistas vêem explosão demográfica como um desafio, mas também como uma esperança para o défice de nascimentos no Ocidente
Em 1950 havia dois europeus para cada africano. Em 2050 prevê-se o contrário. A explosão demográfica em África atingiu este ano a barreira dos mil milhões de habitantes, no mesmo ano em que o envelhecimento - também em Portugal - só não atira o crescimento efectivo de muitos países para números negativos devido ao peso da imigração. É um fenómeno esperado, como admite a demógrafa Ana Alexandre Fernandes, do departamento de Saúde Pública da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Nova de Lisboa. No futuro, conseguir um equilíbrio sustentável da população mundial passará por apostar mais em medidas de inclusão social. "Mesmo com políticas de natalidade, o declínio foi tão prolongado que qualquer medida que só passe por aí será insuficiente", assegura a especialista.
Em 2050, África deverá atingir os 2 mil milhões de habitantes. A projecção é do Fundo das Nações Unidas para a População (UNFPA) e adianta ainda que, destes, mil milhões serão mulheres. "Estes números partem da ideia de que a taxa de fertilidade vai diminuir com o desenvolvimento e com melhores garantias de planeamento familiar", ressalva ao i Omar Gharzeddine, da UNFPA. Segundo este fundo, situações de explosão demográfica sempre estiveram correlacionadas com pobreza. Os países africanos têm a maior taxa de fertilidade mundial - uma média de 5,6 filhos por mulher, quando a média global é 2,6. No Níger, o país onde esta taxa é maior, cada mulher tem 7,4 filhos. Em 2008, média portuguesa continuava a cair, para 1,37 filhos.
"O desenvolvimento parece estar muito longe. No entanto, este marco dos mil milhões pode ser encarado em África como um ponto de partida: investimento no capital humano, com o aumento do poder das mulheres e a melhoria da saúde reprodutiva, são elementos cruciais para um cenário de mais esperança para a região", sustenta Omar Gharzeddine. Segundo a UNFPA, se as taxas de fecundidade se mantivessem nos níveis actuais, a população aumentaria para 11 mil milhões, com os países menos de-senvolvidos a chegar aos 9,8 mil milhões em vez dos 7,9 mil milhões previstos. Com a promessa de novos investimentos, hoje espera-se um crescimento global de 9,1 mil milhões de habitantes em 2050.
Modelo tradicional A África subsariana tem a população mais jovem do globo - em 2050 espera-se que 29% dos habitantes tenham entre os 15 e os 24 anos. No outro extremo, aparece a Europa: estima-se que, entre 2000 e 2050, a população europeia diminua 13%, e a média etária aumente dez anos (de 38 para 48 anos). Dentro de quatro décadas, 26,7% da população terá mais de 65 anos, quando em 1950 este grupo pesava 8,2%.
"África está fora do contexto de crescimento dos outros países. Tem uma taxa elevada de fertilidade mas também de mortalidade. Tem um sistema tradicional e tenderá aos poucos para o sistema demográfico moderno", explica Ana Alexandre Fernandes. Contudo, é difícil perceber como vai decorrer essa evolução. "A Europa teve uma transição demográfica lenta, nunca foi uma explosão acentuada de população. Isto permitiu que, na passagem do século XIX, houvesse um povoamento por europeus de zonas que estavam mais desalojadas", adianta. Hoje não é esse o caso.
Inclusão Para os especialistas não está em causa se África aguenta o crescimento - tem 20% do globo para 13% da população mundial. O problema é como controlar as suas pressões económicas, e até utilizá-las para contrabalançar os problemas de envelhecimento de países de outras regiões, que nos últimos anos têm revisto em baixa o crescimento efectivo. Mesmo na China, estima-se que a população de 1,4 mil milhões de habitantes comece a encolher nas próximas décadas. A previsão de crescimento para a Índia é de apenas mais 3 milhões de habitantes até 2040.
"Estamos naturalmente envolvidos neste problema. Muito brevemente a Europa vai começar a perder gente, e vamos precisar de encarar mais a sério a inclusão demográfica", projecta Ana Alexandre Fernandes. "Portugal é um bom exemplo, mas ainda existem medos relacionados com o terrorismo e alguma xenofobia que precisam de ser trabalhados."
Entre outros cenários, como os genocídios tribais na África central na década de 90 - que os demógrafos acreditam terem estado ligados ao excesso populacional - Ana Alexandre Fernandes está convicta de que o futuro passa pela integração.
Surgem os primeiros sinais: dados revelados pelo INE adiantam que, em 2008, o crescimento efectivo de 0,09% da população portuguesa esteve dependente do fluxo migratório; o crescimento natural foi praticamente nulo. Em 2007, a população tinha aumentado 0,17%.
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