A cultura democratizada fez surgir um novo parlamento, eleito pelas audiências
por Francesco Alberoni, Publicado em 29 de Dezembro de 2009
Outrora, no vértice da pirâmide cultural estavam filósofos, estudiosos, romancistas; agora estão as televisões, os jornais e a web. Faz falta que o seu poder e legitimidade sejam analisados
Nos últimos 40 anos, assistimos a uma revolução cultural. Outrora, a cultura era uma pirâmide em cujo vértice estavam os grandes filósofos, os estudiosos, os realizadores e os romancistas, que estudavam e analisavam a vida humana e indicavam objectivos e valores. As suas obras e livros eram lidos e discutidos pelas pessoas cultas, que, por sua vez, transmitiam o saber a toda a população em debates públicos, nos jornais, na rádio, na televisão.
Até podiam ter posições políticas contrárias, mas tinham uma base cultural comum, o que fazia com que se respeitassem e compreendessem.
Agora já não há pirâmide cultural; foi substituída por um grande palco mediático constituído pelas televisões e também pelos jornais e pela web. Os protagonistas são os grandes apresentadores televisivos, os políticos e os comentadores políticos importantes, as estrelas do mundo do espectáculo e do desporto, alguns intelectuais e os especialistas dos mexericos. Depois há ainda as personagens que sobem à ribalta da política, da literatura, do cinema, da crónica policial e da crónica cor- -de-rosa. Trata-se de um punhado de pessoas que estão sempre presentes em espectáculos e talk shows e que se convidam umas às outras. As revistas femininas completam o quadro: falam de amores, divórcios, filhos e amantes.
Estas pessoas formam um verdadeiro e singular "parlamento mediático", onde se expõem ideias, defendem opiniões, afirmam valores e propõem modelos de comportamento em todos os sectores: política, arte, ciência, educação, medicina, espectáculo. A cultura passou por um gigantesco processo de democratização e massificação. Deste "parlamento mediático" fazem parte muitos centros de poder que competem entre si; a vitória cabe a quem tiver mais audiências, como se se tratasse de uma eleição política ditada pelo maior número de votos. Alguns líderes defendem que estes "parlamentos" são muito mais influentes que qualquer ministro da Cultura ou da Educação, mas nenhum politólogo lhes analisou o poder nem conhece as respectivas bases de legitimidade.
É pena. Assim nunca conseguimos perceber quem é realmente importante e responsável na cultura italiana. Todavia, sabemos que, no vértice da pirâmide, já não estão a cultura, a universidade ou os homens políticos, hoje todos eles outros tantos reféns dessa malha mediática.
Sociólogo, escritor e jornalista
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