Gripe A
Pandemia: mais rápida por carro do que por avião
Publicado em 28 de Dezembro de 2009
O físico português Bruno Gonçalves integra equipa internacional que faz previsões sobre a evolução da gripe A
As deslocações diárias de carro são mais importantes do que os fluxos das companhias aéreas na dinâmica de propagação de uma epidemia. Os movimentos pendulares casa-trabalho podem ser mais determinantes para o contágio do que viagens de longa distância de avião. "Este tipo de mobilidade de médio alcance é responsável por "sincronizar" a evolução pandémica entre cidades próximas. Este aumento de sincronização é tanto mais significativo quanto maior for o fluxo de trabalhadores entre elas. A partir do momento em que uma grande área metropolitana é infectada, a doença expande- -se às zonas circundantes como se de uma onda se tratasse." É esta uma das conclusões de um estudo do grupo de trabalho de Bruno Gonçalves - físico português investigador da Escola de Informática e Computação da Universidade do Indiana, em Bloomington, EUA - publicado na revista científica "Proceedings of the National Academy of Sciences".
A equipa, coordenada pelo investigador da Fundação ISI de Turim, Alessandro Vespignani, trabalha diariamente em previsões sobre a evolução da epidemia, desde que foi dado o primeiro alerta, a 26 de Abril. As taxas de infecção com o H1N1 nos EUA e na Europa Ocidental atingiram o pico em Novembro, de acordo com a Organização Mundial de Saúde. Mas esses primeiros picos poderiam ter sido previstos logo em Setembro, quando a equipa de Bruno Gonçalves publicou um estudo que traçava o prognóstico da evolução do vírus. "Em Portugal, os últimos números batiam certo com o que tínhamos previsto", garante o físico. Os resultados comprovam que é possível fazer previsões em tempo real de uma pandemia a nível global.
Os membros do grupo são uma espécie de cientistas informáticos. Não usam laboratórios, nem máscaras, microscópios ou luvas, mas computadores para traçar a anatomia de uma pandemia. A partir de um modelo computacional, fazem o cálculo das previsões do número de casos e das datas de chegada a cada país na semana seguinte. Como? Com uma descrição detalhada da população de 29 países (incluindo Portugal) de cinco continentes, dados reais da rede de transporte aéreo que permitem "saber o número de passageiros que viaja entre o aeroporto A e B", os movimentos diários de cada pessoa entre casa e o trabalho e as dinâmicas do H1N1. Diariamente sabem "quantas pessoas se movimentam, quais esses movimentos e quantas novas infecções são produzidas". A partir daí conseguem criar uma lei geral e ter uma representação da mobilidade global que permite simulações estatísticas sobre o resultado da evolução do vírus a curto prazo.
Agora que a primeira onda epidémica está a passar, a equipa da Universidade do Indiana acha improvável existir uma segunda. "Não acreditamos que exista número suficiente de pessoas para uma nova onda. Entre as pessoas vacinadas e as que já contraíram a doença, já deve ter sido ultrapassada a meta dos 30%. Com 30% da população imune, o vírus deixa de ter condições para se propagar normalmente."
Os investigadores esperavam que o vírus se propagasse de forma diferente na Europa, devido ao desenho das cidades, transportes e o uso do carro serem distintos dos EUA, mas concluíram que os padrões dos movimentos pendulares são similares em todo o mundo. Como é possível criar uma lei matemática para descrevê--los, estas são boas notícias para os epidemiologistas. "Isto permite-nos construir uma árvore de progressão da epidemia e a árvore assim é muito mais estável."
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