PRIMEIRO PLANO

Boatos

por Ricardo Reis, Publicado em 26 de Dezembro de 2009   
Um boato surge porque não se soube interpretar o que se ouviu ou leu, por maldade ou por interesse? A verdade é que o mais difícil é combatê-lo
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Nada é mais difícil de combater que um boato. Por sorte, nunca me acusaram de ser o filho secreto do Vasco Santana, ou de achar que os professores são todos inúteis. Mas partilho com Miguel Sousa Tavares a frustração com tanta desonestidade.

O meu caso vem de uma entrevista ao "Diário Económico" em Julho de 2007. Nela perguntaram-me: "Face à crise que se instalou no mercado do crédito, o BCE deveria adiar a sua subida nas taxas de juro e a Reserva Federal deveria baixar as taxas?" Eu respondi: "As notícias na economia real nas últimas semanas, sobretudo no mercado da habi tação norte-americano, não me parecem suficientes para causar uma alteração de curso. Logo, mantenho a previsão de que o BCE suba as taxas de juro uma ou duas vezes até ao fim do ano e o Fed não as desça. O grande senão é se a actual crise de liquidez se transforma numa crise financeira. Aí, tudo é possível." De seguida perguntaram-me: "Esta intervenção conseguirá evitar uma crise económica?" Eu respondi: "Penso que sim, que se trata apenas de uma crise de liquidez, da qual daqui a um mês ninguém falará. No entanto, os mercados financeiros são hoje tão complexos e interligados que existe o risco de nos precipitarmos para uma crise financeira. Seria irresponsável ignorar esse risco, e os bancos centrais estão atentos." O cabeçalho no jornal, no entanto, dizia só: "Num mês não se falará nesta crise do crédito."

Por um lado, a minha resposta foi oca: pode ser grave, pode não ser, quem sabe. Por outro lado, a resposta tinha uma (fraca) previsão: se a crise de liquidez se mantiver apenas de liquidez, desaparece em menos de um mês. Se se torna uma crise financeira, então as consequências podem ser terríveis. Que aconteceu nas semanas seguintes? A crise de liquidez tornou--se uma crise financeira, e gerou uma profunda crise económica. A minha previsão foi correcta.

No entanto, sempre que escrevo um artigo que incomoda, surgem rumores a afirmar peremptoriamente que eu sou um palerma porque previ que não haveria crise nenhuma. Inicialmente, achei que era um mero descuido, mas o boato cresce, e nos últimos tempos li-o na escrita de João Rodrigues e João Pinto e Castro, colunistas na imprensa. Porque será?

A explicação pode estar no carácter das pessoas. Talvez sejam preguiçosas, e não saibam ler para além de um cabeçalho. Talvez sejam burras e não saibam ler, ponto final. Ou talvez sejam apenas desonestas e gostem de espalhar mentiras.

Outra explicação, da teoria económica, repara que porque alguns tansos vão acreditar no boato, quem o espalhou pode depois usá-lo para promover causas que lhe interessam (isto acontece todos os dias na bolsa). A teoria prevê que esta coluna não vai matar o boato. Vai antes criar volatilidade no mercado, dividindo-o entre quem percebeu e não percebeu a verdade. Fica a ganhar quem espalha o boato e pode aproveitar-se dos dois lados.

Professor de Economia,

Universidade de Columbia

rr.ionline@gmail.com

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