Exclusivo i Fernando Pessoa: Sobre Alfred Tennyson

por Pauly Ellen Bothe, Publicado em 24 de Dezembro de 2009   
Mais um texto de uma série de 11 inéditos de Fernando Pessoa que o i vai publicar todas as semanas até 31 de Dezembro
Opções
a- / a+
Foram inúmeras as páginas que Pessoa preencheu com textos dedicados ao estudo de autores das mais variadas línguas e tradições literárias. Entre os escritores sobre os quais se debruçou destacam-se os de língua inglesa, dado que muitos destes fizeram parte da sua formação escolar na colónia inglesa de Natal, na África do Sul.

No texto seguinte - que bem poderia ser um apontamento crítico independente ou uma espécie de capítulo de uma "História da Literatura Inglesa" esboçada por Pessoa -, Tennyson é apresentado como "o maior artista dos tempos modernos". Para Pessoa, o longo poema "In Memoriam", de Alfred Tennyson (cf. "...behind the veil..."), composto por ocasião da morte de Arthur Henry Hallam, revelaria todo o carácter metafísico da poesia do lírico inglês, assente mais na fé do que num pensamento filosófico.

Refira-se que noutras apreciações críticas Pessoa destaca que Tennyson pertenceu ao período vitoriano da literatura inglesa, no qual "o carácter inglês" estaria "completamente constituído, representando aquele poeta completamente o carácter inglês típico". Nessas mesmas apreciações, Pessoa elogia a musicalidade dos poemas de Tennyson e o seu equilíbrio artístico. Como se pode ler num fragmento de "Páginas de Estética e de Teoria e Crítica Literárias" (1967: 68), Pessoa enquadrava o seu precursor no "terceiro grau da poesia lírica", "aquele em que o poeta, ainda mais intelectual, começa a despersonalizar-se, a sentir, não já porque sente, mas porque pensa que sente; a sentir estados de alma, que realmente não tem, simplesmente porque os compreende". Pessoa compara Tennyson com Shelley, Victor Hugo e Swinburne (autor do poema "The Higher Pantheism in a Nutshell", em que parodia o mais sério poema de Tennyson: "The Higher Pantheism"). Pessoa apreciava estes dois poetas ingleses - que tiveram influência na sua obra -, e resgatou deles uma elevação intelectual que os aproximou do quarto e último grau da poesia lírica: a "plena despersonalização". Por isso Pessoa, que procurou ser, como Shakespeare, um poeta lírico "erguido a dramático", considera que "Tennyson é, visto já por nós, um melhor Swinburne latente".

Pauly Ellen Bothe, Universidad Nacional Autónoma de México


Qual a sua reacção:
Tem mais informações sobre esta notícia?
Conte a sua história. Seja um iRepórter.

Notícia relacionada

Close