Acidente

Hot Club: a música não pára, muda de sala - vídeo

por Luís Leal Miranda, Publicado em 23 de Dezembro de 2009   
Edifício semi-abandonado arde e deixa cave alagada. É o fim do Hot como o conhecemos
Opções
a- / a+
Um incêndio ameaçou o Hot Clube de Portugal mas foi a água usada para o apagar que afundou um dos mais antigos clubes de jazz da Europa. A Câmara Municipal de Lisboa garante que não deixa os 60 anos de história irem por água abaixo.

As causas do fogo ainda estão por apurar e os estragos por avaliar. Quase 24 horas depois de ter começado o fogo no último piso do prédio ocupado pelo Hot Clube de Portugal, uma coisa é certa: as probabilidades de voltar a ouvir música a sair da cave daquele que é um dos clubes de jazz mais antigos da Europa são muito reduzidas. Os litros de água usados pelos bombeiros para apagar as chamas inundaram o prédio, um edifício antigo, com estrutura e tabiques de madeira, no número 39 da Praça da Alegria, Lisboa. A cave ficou inundada. Para Inês Homem Cunha, directora do Hot Clube desde Maio, o incidente pode significar "o fim daquela sala como a conhecemos". A protecção civil vai selar o edifício, não por perigo de derrocada, mas pela probabilidade de haver abatimentos.

Para além de ter perdido a sua sala de concertos, o clube vê-se agora a braços com um piano muito danificado (instrumento valioso cuja recuperação foi prioritária), um contrabaixo difícil de recuperar e milhares de euros perdidos em equipamento sonoro encharcado. "Cancelei os concertos até ao fim do ano mas mantive os de 2010", conta Luís Hilário, programador daquela sala de espectáculos exausto depois de um dia que começou cedo - e mal. "Recebi um telefonema às quatro da manhã e vim a correr para aqui. É claro que não havia nada que eu pudesse fazer". Na cabeça do homem responsável pelo agendamento de concertos estão os músicos estrangeiros com datas marcadas e a necessidade de uma alternativa rápida à cave alagada. "A parte do clube está intacta mas o prédio não tem condições. Temo que seja o fim da cave do Hot a não ser que surja um projecto de recuperação", completa Hilário.

Para Ilídio Nunes, um dos responsáveis pela editora de jazz Clean Feed e loja Trem Azul, a recuperação do edifício do Hot devia ser uma prioridade - e não uma fatalidade. "Estou muito irritado com o desleixo da câmara municipal. São 60 anos de história que desaparecem". A cave, frequentada por amantes de jazz, músicos e amigos, era das poucas coisas a funcionar num prédio praticamente devoluto. Para além do Hot Clube, morava ali a tertúlia tauromáquica Festa Brava e um restaurante, ambos a aguardar uma solução. "É a política da cidade", entusiasma-se Ilídio Nunes, "preferem gastar milhares a trazer cá uns aviões para fazer publicidade a uma bebida energética do que investir na recuperação de edifícios históricos".

A inundação da sala de concertos não implica, no entanto, o fim das actividades do clube. Escola, serviços administrativos e todo o espólio do seu fundador, Luiz Villas-Boas, estão alojados num outro edifício, em Alcântara.

Solução de recurso A Câmara Municipal de Lisboa, dona do edifício onde está o Hot Clube, já garantiu um palco e uma sala para os concertos agendados para 2010. A sala três do Cinema São Jorge ali perto, na Avenida da Liberdade, é a solução de recurso apresentada ontem pela vereadora Catarina Vaz Pinto - basta resolver questões relacionadas com compatibilidade de horários e acústica do espaço.

Quanto ao edifício da Praça da Alegria, segue-se a cobertura provisória da fachada e remoção dos escombros. Técnicos da Direcção Municipal de Conservação e Reabilitação Urbana concluíram que este "não está em condições de voltar a ser utilizado". Do pelouro da cultura vem ainda a garantia que a Câmara está interessada em recuperar o edifício e devolver a cave ao Hot Clube em bom estado. Essa era a vontade dos responsáveis por aquele clube de jazz há décadas. "Andamos à procura de uma solução de fundo há anos, pode ser que agora seja uma boa oportunidade para recuperar de vez todo o edifício", lembra a directora, Inês Homem Cunha.

Entretanto, grupos de solidariedade começaram a surgir um pouco por toda a internet. Ao final da tarde de ontem, mais de 300 pessoas juntavam-se a apoiar pelo Facebook. Ao i, o músico Mário Laginha mostrou-se "de coração destroçado" pela notícia. O editor Ilídio Nunes aproveitou para recordar aquela sala de concertos como "um autêntico local de encontro e partilha, único em Portugal".

Jazz no subterrâneo: mais que um clube

• O Hot Clube de Portugal foi aberto em 1948 por Luiz Villas-Boas (1924-1999)
• Sócio nº 1, apresentava um programa de jazz no Rádio Clube Português com o mesmo nome, no ar entre 1945 e 1969
• Villas-Boas foi um dos responsáveis pela primeira edição do Festival de Jazz de Cascais, em 1971
• Entre os sócios fundadores contam-se também Gerardo Castello-Lopes ou Augusto Mayer
• Em 1979 foi criada a escola de jazz do clube, pelo contrabaixista Zé Eduardo
• Pelo palco do Hot Clube passaram nomes como Count Basie, Dexter Gordon, Thad Jones ou Lee Konitz, tal como diferentes gerações do jazz português – Bernardo Moreira, Mário Laginha, Bernardo Sassetti, Maria João, António Pinho Vargas, Filipe Melo ou Paula Oliveira


Qual a sua reacção:
Tem mais informações sobre esta notícia?
Conte a sua história. Seja um iRepórter.

Notícia relacionada

Close