Natal

No meu tempo é que era. Memórias de Natal dos anos 20 até hoje

por Joana Stichini Vilela e Vanda Marques, Publicado em 01 de Março de 2009   
Nos anos 20 não havia árvore de Natal, nos 40 o Pai Natal ainda não tinha chegado, mas nos anos 60 e 80 tomou conta da época. O i falou com cinco gerações. Descubra as diferenças
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ANOS 20
Maria Amélia Vasques Osório, 89 anos


"Cresci com os meus avós, num solar em Lavadores, perto do Porto, e era lá que se reunia a família. Dia 24 de manhã as senhoras iam ao Mercado do Bolhão. De tarde a minha mãe e tias iam para a cozinha dirigir as criadas. Ao mesmo tempo enfeitava-se a sala de jantar e montava-se o presépio. O meu avô recebia os pobres da freguesia, falava-lhes do nascimento do menino Jesus e dava-lhes um envelope. Nós, os cinco primos, íamos bisbilhotar. Às sete horas recolhia tudo para se vestir de toilette, com vestidos plissados de cima abaixo, as senhoras com as suas jóias. Então era servido o jantar, bacalhau cozido. Para quem não gostasse, havia pescada de Vigo, maravilhosa. Os doces de Natal nunca mais acabavam: mexidos, pão-de-ló, aletria (que eu detestava) e três qualidades de rabanadas. No fim da ceia, um filho, regra geral a minha mãe, falava sobre o Menino Jesus. Depois íamos para o salão de visitas tocar piano e cantar músicas de Natal. Por volta das 11 e meia, as criadas avisavam que a cozinha estava arrumada. Púnhamos o sapatinho na chaminé e, de volta à sala, ouvia-se um barulho enorme: "é o Menino Jesus!" Era uma alegria. Havia prendas para todos, incluindo as criadas. Recebíamos o que durante o ano tínhamos pedido: bonecas, serviços. Acreditava absolutamente que era o Menino Jesus que trazia tudo pela chaminé."

ANOS 40
Antila Correia Leite, 66 anos

“Os preparativos do Natal eram uma festa, desde a apanha do musgo para o presépio aos presentes. Lembro-me que se começava a fazer os doces dois dias antes da consoada. A casa dos meus pais em Viana do Castelo tinha uma cozinha enorme e a minha mãe punha toda a gente a colaborar. Como era a mais pequena de sete irmãos andava por lá a cirandar. Faziam rabanadas, formigos (bolo tradicional feito à base de doce de ovos com pão e frutos secos) e tínhamos uma consoada tradicional, com o bacalhau cozido. Para mim, a festa era ainda maior porque não havia sopa. Juntavam-se cerca de 16 pessoas em minha casa, entre primos e tios. Era uma azáfama. Depois de jantar, íamos à Missa do Galo, mas eu queria ir o mais rápido possível para a cama, porque só abríamos os presentes na manhã de 25. Era uma ansiedade tão grande. Junto ao presépio deixava um sapato. Não havia árvore de Natal. Como era a mais nova, recebia cerca de dez prendas. Coisas úteis, como roupa, mas também bonecos. Os mais marcantes foram uns patins e uma boneca de celulóide, do meu tamanho, a mais sofisticada que tive. Lembro-me perfeitamente dela."

ANOS 60
João Carlos Louro, 47 anos


“A noite da consoada era um jantar normal, mas com mais doces. Comíamos bacalhau cozido e devorava fatias douradas até ficar enjoado. Para mim, o Natal era no dia 25 quando abríamos os presentes. Na noite de 24 jantava com os meus pais e com os meus dois irmãos na nossa casa em São Pedro do Estoril. Depois, ia-se à Missa do Galo, mas nós arranjavamos sempre uma desculpa e ficávamos em casa. Nunca me esquecia de pôr o sapatinho na chaminé. Era aí que o Pai Natal deixava as prendas. Lembro-me da ansiedade de querer ir dormir para no outro dia abrir as prendas. Recebia entre três a quatro. Às vezes apareciam umas meias ou roupa, mas o que eu queria eram os brinquedos. Recebia Legos e carrinhos. Não me recordo de escrever uma carta ao Pai Natal. Acho que a única vez que fiz uma espécie de lista foi com a ajuda do meu irmão. Lembro-me de ver um comboio eléctrico num catálogo e dias depois ele apareceu nos meus presentes. Não sei quando deixei de acreditar. Acho que comecei a desconfiar quando os meus irmãos me contaram que receberam um camião grande de mais para caber na chaminé. Ainda por cima, ouviram o barulho do brinquedo durante a noite.”

ANOS 80
Catarina Godinho, 27 anos


“Cresci em Setúbal, mas os meus pais são do Alentejo. Saíamos dia 24 cedo, o carro a abarrotar de prendas (escrevia uma carta, mas nunca acreditei no Pai Natal; não tínhamos lareira e os meus pais falavam no Menino Jesus). Em Aljustrel, comíamos com uma tia e a tarde era passada a cozinhar. A família só se juntava para a ceia, num ambiente muito alegre, a minha mãe e tias felizes por estarem juntas, nós, os nove primos, a brincar. Apertávamo-nos todos junto à lareira, os homens de um lado, à mesa,  as mulheres do outro. Havia imensa comida: sonhos, filhoses, bolo-rei. À meia-noite vestíamos o primo mais novo de Pai Natal e trocávamos prendas. Era a desorganização total. Os meus pais só me davam uma – pedia sempre um acessório da Barbie – mas recebia várias do resto da família: pijamas, livros... Às vezes, as mulheres e crianças iam à Missa do Galo. Sentia um frio de rachar, mas gostava. Era um ponto de encontro. Num ano os meus avós de Serpa foram passar o dia 25 a Aljustrel. A minha avó materna comprou um cabrito. Éramos tantos que tivemos de comer num anexo, numa mesa enorme sem enfeites ou toalha de Natal. Interessava era estarmos juntos.

ANOS 00
Miguel Gomilho, 8 anos

“Escrevo uma carta ao Menino Jesus e dou à minha mãe. O Menino Jesus deixa as prendas na casa da mãe e na casa do pai [em Lisboa]. É a minha mãe que divide a carta com o pai. Mas quem dá os presentes é o Menino Jesus.” E o Pai Natal? “Só existe um Pai Natal, é o Nicolau. No dia 24 não como bacalhau, isso é para os grandes. Como bacalhau com natas. E doces. Gosto muito dos sonhos porque têm açúcar. Antes de jantar pomos um sapato à volta da árvore de Natal, mas eu ponho uma chuteira. Sou o único que tem chuteiras cá em casa. Às vezes vou à missa, outras vou brincar para o jardim com o João e o Zé Manel [tios]. Depois apagam as luzes e o Menino Jesus deixa os presentes ao pé dos sapatos. É o meu avô que nos chama. Sou o primeiro a abrir as prendas. Gosto de rasgar os papéis fininhos. No outro dia vou para a casa do pai e recebo mais presentes. Almoço carne. Acho que é cabrito ou leitão. Não sei. Não há é tantos doces. Passo a tarde a jogar Playsation com o meu irmão mais novo e a brincar com os outros irmãos. Somos seis. Este ano pedi o ‘Ben 10’ e o ‘PES 2010’ para a PSP. Recebo o que peço, porque porto-me bem.”



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