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Vocês são do rancho folclórico? Não, somos lolitas - vídeo
por Rui Pestana, Publicado em 22 de Dezembro de 2009
Andar assim na rua implica ouvir provocações. Mas elas não se importam. Conheça as lolitas portuguesas
Numa tarde de sábado na Rua Augusta a história repete-se: as cinco lolitas atraem muitos olhares curiosos. É sempre assim, ninguém lhes fica indiferente. Mafalda, Filipa, Ana, Inês e Sílvia já estão habituadas aos flashes das máquinas digitais e aos dedos que apontam para elas, quase acusadores.
Mas o que faz com que estas cinco raparigas atraiam mais atenção que muitos manequins em exposição nas lojas? São lolitas, ou seja, seguem um estilo alternativo de moda que teve origem nos anos 80, no Japão, e que é influenciado pela moda vitoriana e rococó. O estilo tem tão poucas seguidoras que nem chegam a ser consideradas uma tribo urbana. Em Portugal existem cerca de 30 fiéis desta moda.
Entre as lolitas encontramos vários subestilos - punk, gótico, sweet ou clássico -, mas alguns elementos são comuns a todas: as saias em forma de sino, as meias de renda ou o laço na cabeça.
Dias de Princesa Hoje em dia, o estilo lolita faz parte de uma subcultura urbana associada à elegância e à inocência da mulher.
Filipa Neves, 21 anos, gosta de se vestir como lolita porque se sente mais feminina: "É como aquelas pessoas que se arranjam para sair. Esta é a nossa maneira de nos arranjarmos, é a nossa maneira de nos sentirmos bonitas. Os dias em que nos encontramos para sair são os nossos dias de princesas."
Com um laço na cabeça e um vestido à dama antiga, rico em folhos e rendas, Mafalda Carvalho nem usava rosa antes de se tornar lolita. "Aprendi a conhecer melhor a forma do meu corpo e aquilo que me assenta melhor em moda. Ser lolita ensina-nos um pouco a ser senhoras elegantes, que é uma coisa que não está presente na educação das raparigas. A roupa actualmente é pouco elegante, é muito mais prática."
Mafalda e Filipa são moderadoras da comunidade Elegant Gothic Lolita em Portugal (www.eglportugal.pt.vu). A principal actividade desta comunidade é organizar encontros de lolitas, oportunidades para encarnar o estilo, conviver e conhecer novas pessoas. Com cerca de 30 membros activos, o grupo conta sobretudo com raparigas na casa dos 20 anos que procuram saber mais sobre a moda e obter informações sobre eventos e lojas em Portugal.
Lolitas, mas só nas horas livres São poucas as lolitas que se aventuram a usar aquelas roupas no dia-a-dia. A maioria assume-se apenas nos encontros (ou "meets", como lhes chamam). Contudo, Sílvia Soares procura misturar peças de lolita com a roupa do dia-a-dia. "Sinto-me como um misto de princesa e boneca. Dá-me uma certa serenidade saber que estou a usar algo para agradar a mim própria e porque gosto, e não para satisfazer a opinião dos outros", explica.
Ana Caramujo, estudante de Design Gráfico e Multimédia nas Caldas da Rainha, faz questão de se vestir como lolita "pelo menos uma vez por semana, mesmo para a faculdade". Até agora as reacções foram positivas, mas "há que ter em conta que estou numa faculdade de Artes, em que as pessoas costumam apreciar estilos diferentes".
Ser diferente implica ouvir piadas menos simpáticas: "Trabalhas na Disney?"; "Vocês são do rancho folclórico?"; ou "Onde é o desfile?" "Um dia, uma sessão fotográfica em frente ao Museu do Design acabou por juntar dezenas de pessoas convencidas de que se tratava de uma performance", lembra Mafalda.
Mário Carvalho, pai de Mafalda, apoia o estilo da filha, mas preocupa-se com as consequências. "As pessoas na rua não estão habituadas a um aparato desta natureza. Há opções que podem ser mal interpretadas", observa. Já a mãe, Maria Henriques, elogia as roupas "diferentes e bonitas" e lembra que Mafalda "já em pequenina fazia de qualquer trapo um vestido de gala". E a idade não é limite para nada: "Lolita ou não, ela vai continuar a vestir--se como gosta e com alguma especificidade."
Do país das maravilhas Finalista do programa "Ídolos", Inês Laranjeira tem dado nas vistas e não apenas pelas actuações. "Parece que saíste do país das maravilhas", comentou Laurent Filipe, do júri do programa, depois de a miúda de 16 anos do Montijo passar com distinção o primeiro casting. Inês é uma das últimas oito concorrentes do "Ídolos" e é conhecida como lolita.
A entrada no programa não influenciou a maneira de se vestir, garante Inês: "Eu sou assim. Claro que a imagem conta, e isso já foi dito bastantes vezes nos castings... Mas não utilizo a imagem como um elemento a meu favor. Ela faz parte de mim."
Tudo começou quando o pai lhe ofereceu o livro "Fresh Fruits", que mostra o estilo vibrante do distrito de Harajuku, em Tóquio. "Fiquei completamente apaixonada por aquele estilo e entrei assim a minha fase Harajuku", recorda Inês. Há cerca de dois anos começou a vestir-se "de forma diferente", passou a usar mais saias e a interessar-se por um estilo "mais feminino e cuidado".
Depois de duas galas do programa "Ídolos", o horário nobre televisivo tratou de colar a imagem de Inês à ideia que os portugueses têm do estilo lolita. Com 16 anos e a atravessar um turbilhão mediático todas as semanas, não tem a certeza se é um exemplo da moda lolita: "Isso já não sei... Agora apetece-me vestir assim porque sinto que sou feminina. E lolita não é só a maneira de vestir, é também ser alegre e divertida."
Para as moderadoras da comunidade lolita Portugal, o estilo que Inês apresenta no programa não é o de uma lolita. "A Inês laranjeira é uma rapariga muito nova e tem uma voz maravilhosa, mas não veste o estilo lolita como nós o concebemos. Tem um estilo que tende mais para o rockabilly, anos 50, rétro", diz Mafalda Carvalho. Já Filipa Neves reconhece-lhe "alguma inspiração" no movimento lolita, mas sublinha que lhe falta o essencial: elementos vitorianos e o rococó.
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