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Pai Natal. Quem se esconde atrás das barbas brancas?

por Clara Silva, Publicado em 21 de Dezembro de 2009   
Ganham dinheiro em anúncios e filmes e cuidam do visual para esta época que os transforma em heróis das festividades
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São as barbas de Severino Moreira, de 60 anos, que anunciam a chegada do Natal ao bairro de Alfornelos. Quando os vizinhos o encontram nas escadas do prédio com uma farta barba branca, já sabem que está na altura de comprar presentes. "Assim que vêem que estou a deixar crescer a barba, apercebem-se de que o ano está a acabar", explica Severino, Pai Natal no Centro Colombo há nove anos. A enorme árvore de Natal plantada na Praça Central do centro comercial em Lisboa passa despercebida ao lado de Severino. Sentado num cadeirão com um fato vermelho, deixa os miúdos hipnotizados com a sua simpatia. "Pai Natal, de que tipo de bolachas gostas mais?", pergunta insistentemente um rapaz. A mãe suspira, já sem paciência para tantas perguntas, mas Severino tem resposta para tudo. Ou quase tudo. "Na noite de Natal deixa-me umas bolachas de chocolate e um copo de leite quente", diz enquanto esfrega a barriga. "Só houve uma rapariga que me deixou sem resposta", conta. "Pediu-me uma fotografia das minhas renas e não tinha nenhuma." A partir desse dia, guarda sempre fotocópias de fotografias de renas no camarim onde tem o resto do material, que inclui várias luvas brancas e gel desinfectante para prevenção da gripe A.

Pai Natal Familiar Antes de fazer publicidade como Pai Natal, Severino começou por encarnar a personagem para a família. "Sou o mais velho de nove irmãos e, como devem imaginar, há muita criançada no Natal", conta. "Como já fazia teatro amador, decidi vestir-me de Pai Natal para animar a noite. Mas tudo de uma forma muito artesanal." Há 20 anos, um fato de treino encarnado, umas barbas de algodão e umas galochas pretas resolveram o assunto. "Saí de casa com uma lanterna e dei uma volta pelo prédio para os miúdos acreditarem. A algazarra foi tal que até os vizinhos me pediram para ir entregar as prendas lá a casa." De Pai Natal do prédio até ao mundo da publicidade foi um pequeno passo. "Para ser mais credível, desisti da barba artificial", conta. "Até acho pouco higiénico."

Inscreveu-se numa agência de figuração e, depois de uma campanha da Vodafone, foi convidado pelo Colombo para se sentar no trono natalício. "Isto aqui é uma espécie de confessionário dos mais pequenos", afirma. Tem tantas histórias para contar que, no ano passado, decidiu escrever um livro. "Vivências e Reflexões de um Pai Natal" é a compilação das melhores histórias de Severino, boas e más. "Nunca me hei-de esquecer de uma rapariga que me perguntou se na Lapónia não havia um remédio para o pai dela não dizer tantas asneiras."

Pai Natal Estrela João Gomes Ferreira, de 73 anos, diz que foi eleito o quarto melhor Pai Natal da Europa. Por quem? "Nem sei bem, foi há dois anos. Fizeram uma estatística e vinha lá o meu nome como o quarto melhor", conta com um sorriso. Provavelmente merece o título. Nesta altura do ano é o Pai Natal mais solicitado. Além de se sentar na cadeira do último piso do El Corte Inglés e ouvir os pedidos das crianças, faz publicidade e distribui presentes em eventos de empresas ou em casas particulares. "De futebolistas, por exemplo", diz enquanto pede um café na pastelaria "Correio Azul", na Baixa. "Aqui toda a gente sabe que ele é o Pai Natal", conta o dono do café. "Os miúdos vêm ter com ele e pedem chocolates e balões", diz. "E também é um grande poeta e contador de anedotas", acrescenta um amigo ao balcão.

João nem precisa de fato de Pai Natal para ser reconhecido na rua. As barbas e o ar afável são tudo. "Em Janeiro corto a barba quase toda e a partir de Março volta a crescer. Invisto neste visual e compro champôs e cremes para ter esta carinha laroca." A partir de Setembro começam as solicitações para publicidade. Este ano é o Pai Natal da Worten, mas já perdeu a conta aos anúncios em que participou. "Esperem, tenho aqui tudo." Do bolso tira uma folha com uma lista de trabalhos: "Optimus, Feira Nova, Millenium, Sumol, BES com o Cristiano Ronaldo..." O visual permite-lhe fazer vários papéis. "Participei em filmes históricos, como 'Os Maias' ou 'O Rei de Nápoles', mas também faço figuração. No 'Inspector Max' fiz de sem abrigo."

A primeira vez que se vestiu de Pai Natal foi na Baixa. "Há 30 anos, fui para a rua com um fotógrafo e um burro. Dávamos um balão aos miúdos e as fotos saíam numa polaróide." Hoje consegue ganhar 200 euros por hora, quando é contratado para distribuir presentes em eventos privados. "Mas na noite de Natal fico em casa."

Pai Natal de barba artificial Nos Armazéns do Chiado, Sebastião é Pai Natal há 8 anos. E veste mesmo a camisola. Nem por um segundo deixa de falar com uma voz rouca de Pai Natal: "Prefiro não misturar as coisas. Aqui sou Pai Natal e não sou o intérprete. Não gosto que me reconheçam, nem revelo a minha idade." O rosto de Sebastião esconde-se atrás da barba artificial. "Os fechos-éclair dos blusões são os maiores inimigos deste tipo de barba", explica. "Agarram-se e lá vai ela." Mesmo assim os miúdos nem reparam. "Só uma rapariga de 20 anos é que ma puxou. Teve um comportamento inadmissível que até foi repreendido pelas amigas." As sobrancelhas pintadas de cinzento revelam que Sebastião é muito mais novo do que o Pai Natal. "Ainda são escuras de mais para esta barba." Mas dão para disfarçar. "Quando saio daqui, ninguém me reconhece. No outro dia, no autocarro, fui sentado ao lado de uma empregada da Fnac que vem falar comigo todos os dias e ela nem reparou que era eu", conta.

Sebastião faz o papel mais por gosto do que pelo dinheiro. "Gosto muito de miúdos e também sou contador de histórias." Ao seu lado tem um saco com livros para oferecer e bonecos de renas que se mexem. "Os miúdos perguntam-me se são verdadeiras e eu digo que não. Em Lisboa há muita poluição e, quando me quero ir embora, toco uma campainha especial e elas vêem-me buscar para a Lapónia."



Pai Natal ao Domicílio No dia 24 de Dezembro, António Carvalho, de 69 anos, vai estar ocupado a distribuir presentes até às onze e meia da noite. "Tenho um serviço, único em Portugal, de Pai Natal ao domicílio", explica num dos poucos intervalos em que os miúdos do "Natal dos Hospitais" o deixam respirar. "Depois disso vou para casa fazer de Pai Natal para os netos." António era técnico de vendas, antes de se reformar e transformar no Pai Natal. O fato vermelho que usa nesta época custou 300 euros. "Mandei-o fazer a uma senhora amiga que é costureira", conta. A agenda de António está sempre preenchida. Entrega presentes em casa de desconhecidos e já participou em dezenas de anúncios, séries e filmes. "Também faço centros comerciais, mas não gosto muito. É sempre a despachar."

Começou com uma barba falsa, até deixar crescer a sua a partir de Abril. A 26 de Dezembro corta-a e encarna o palhaço Batatão. "Faço este trabalho com uma colega minha da Universidade da Terceira Idade", conta. "Ando lá a estudar informática. Nunca é tarde para aprender."

Os seus netos acreditam que é amigo do "verdadeiro Pai Natal". "Sabem que sou eu que entrego os presentes, mas acham que vou em sua representação."

Com Luís Leal Miranda


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