Vital Moreira: a imigração é uma solução para a Europa

Publicado em 11 de Maio de 2009   
Candidato do PS às europeias condena PCP pelas agressões e diz que o 25 de Abril não foi feito para isto
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Tenho uma visão para a Europa. Como eurodeputado eleito por Portugal tenho duas missões essenciais. Por um lado, contribuir para uma Europa mais forte, para uma União mais eficiente e mais democrática, com mais peso no mundo. Por outro, ter em conta as especificidades do nosso país no contexto da União: um país de convergência, com regiões ultraperiféricas e que é fronteira externa da União.

Que relação deve a Europa ter com os Estados Unidos?

Sempre defendi que a União se deve afirmar na cena internacional com o peso económico que tem. Há uma grande assimetria entre o peso económico da UE ? é o maior mercado do mundo ? e o seu reduzido peso político. Há nesta relação dois factores que a favorecem: a eleição de Obama e uma política de multilateralismo. A Europa deu-se finalmente conta que tem um papel a desempenhar.

Deve a Europa abrir as suas portas à imigração?

A Europa sempre foi um lugar de mistura de povos e não pode, hoje, prescindir da contribuição que os imigrantes trazem. Os sistemas de segurança social estariam em risco se não fosse a contribuição dos trabalhadores imigrantes. Só posso ser a favor de um modo positivo de encarar a imigração. Uma imigração com direitos que se sinta integrada na Europa. Não creio que a imigração seja um problema, é uma solução.

Mantém a decisão de contrariar as orientações políticas do PS e votar contra Durão Barroso?

Quando a minha candidatura foi apresentada esse apoio já era conhecido. Mas na minha concepção de democracia eleitoral, as eleições devem contar para a escolha dos executivos. A questão está resolvida se o Partido Popular Europeu obtiver uma nova maioria, como em 2004. É por isso que Durão Barroso é presidente, porque o Partido Popular Europeu chamou a si o direito de escolher o candidato e, recorde-se, foi ensaiada uma candidatura de António Vitorino pelo Partido Socialista Europeu. O seu candidato seria indigitado e, devo dizer, nessas circunstâncias nem teria dificuldades de apoiar Durão Barroso. Por dois motivos: por um lado, em igualdade de circunstâncias, o facto de ser português é um argumento; por outro, haverá candidaturas menos equilibradas dentro do próprio PPE. A questão é se o PPE não ganha as eleições. E aí pergunto se a indigitação do actual presidente da Comissão se deve manter. Na minha opinião não deve.

O partido lida bem com o seu "socialismo freelancer", com a sua liberdade crítica?

Como se viu. Pouco tempo antes de assumir esta candidatura tinha mantido diferenças públicas sobre o Estatuto dos Açores, sobre as SCUT e o reconhecimento do Kosovo, vários aspectos onde não acompanhei o PS. Mas, no fundamental, participei no desenho desta esquerda moderna, protagonizada por este governo. Sou co-responsável por esta nova perspectiva de um governo que, sem deixar de ser de esquerda e de lutar pelos seus objectivos tradicionais, acha que deve modernizar os seus valores em termos de competência económica, disciplina financeira, modernização do Estado e segurança. É a receita que caracteriza esta esquerda de José Sócrates.

A sua independência nunca foi olhada de lado pelos militantes do PS?

A diferença entre o PS e o PCP, para além de todas as óbvias, é que o PS lida bem com os independentes. Tanto lida que fez questão de ter independentes nas suas listas. Ao contrário do que mostrou a lamentável cena do 1.º de Maio. O PCP lida mal com a dissidência e com o facto de antigos militantes, passados 20 anos, assumirem eleições por outros partidos.

Chamaram-lhe traidor?

Confesso que não estava à espera, apesar de conhecer bem o que é a atitude do PCP em relação aos seus antigos militantes. Passados 20 anos pensei que essa característica tivesse passado. A cena não é obviamente só dirigida a mim, apenas por ser quem sou. É por estar ali como candidato do PS. Por reunir duas aversões características do PCP: em relação aos seus antigos militantes e em relação ao PS que, historicamente, o PCP sempre encarnou como inimigo principal. Ali, eu encarnava duas inimizades do PCP.

Como é que percebeu que as pessoas que o agrediram na sexta-feira eram militantes do PCP?

Há coisas notórias que não precisam de prova.

Não havia militantes do Bloco de Esquerda?

É provável. Isso circula na blogosfera.

Mas não fazia sentido também exigir um pedido de desculpas ao BE?

Aquele público e aquele conjunto de pessoas eram identificáveis com o PCP.

Foi o adeus definitivo a qualquer convergência à esquerda, caso o Partido Socialista não obtenha uma maioria nas próximas legislativas?

O objectivo do PS é renovar a maioria e levar a cabo o seu programa. Mas constato os factos: o PCP e o BE tomaram o PS como inimigo principal e querem tirar a maioria ao PS, mesmo que isso possa implicar a vitória à direita. Como mostra o exemplo de Lisboa, o PCP e o BE disseram não às tentativas de António Costa e as perspectivas para formar uma coligação à esquerda goraram-se. Os sinais são demonstrativos que o clima para formação de coligações à esquerda, se tal fosse necessário, não existe.

Em algum momento naquele dia se arrependeu de ter entrado na corrida...

Não, mas sinceramente não imaginei que pudesse passar por esta provação. Julguei que isto já não era próprio de uma democracia estabilizada e de uma cultura democrática decente. Eu não entrei nisto para ganhar o campeonato da injúria e do achincalhamento da política. Entrei nesta corrida para elevar o debate político. Nada em termos democráticos, numa democracia decente, justifica desacatos daqueles. Foram insultos do mais baixo, empurrões, tentativas de agressão e mesmo algumas agressões efectivas.

Quanto ao seu desabafo sobre a Marinha Grande. Qual é o significado desta evocação ou comparação?

Tal como no caso da Marinha Grande, tínhamos um candidato do PS que foi alvo de arruaça por parte de militantes do PCP. Aqui tivemos a mesma coisa. A semelhança é óbvia. Os mesmos protagonistas, as mesmas causas e as mesmas circunstâncias. Não mais do que isso. Não quis obviamente comparar-me a Mário Soares. Mas não pude, no meio daquela arruaça, deixar de lembrar que os protagonistas e as motivações políticas eram os mesmos.

Espera alguma tradução eleitoral deste caso?

Os cidadãos julgam por si mesmos. Não me compete tirar a moralidade daquele episódio. Quando evoquei o caso da Marinha Grande não foi para evocar as consequências, foi para evocar as circunstâncias.

Mas o PS está claramente a usar este episódio para se vitimizar eleitoralmente?

Eu e o PS fomos contidos nos comentários. Não fizemos condenações sumárias nem queixas criminais. Não humilhámos quem quer que seja. Constatámos apenas o óbvio: que um candidato do PS foi alvo daquele desacato. Visto que os protagonistas eram notoriamente identificados com o PCP, a única coisa que pedimos é que condenassem métodos destes e que apresentassem as desculpas ao PS.

Manuel Alegre demorou tempo a condenar os acontecimentos?

Ele telefonou-me passados poucos dias. Não atendi porque não tinha o número dele. Mandou-me uma mensagem a dar--me um abraço de solidariedade.

José Lello, secretário nacional do PS, fez críticas violentas a Alegre, dando a entender que havia determinadas coisas que ele não condenava. Não sentiu falta de uma condenação pública por parte de Alegre?

A solidariedade pessoal basta-me.

Mudando de assunto, como é que vai explicar aos portugueses que não quis ouvi-los em referendo na questão do Tratado de Lisboa?

Sou contra referendos de Tratados tal como sou contra referendos de leis, ou do código civil ou do código penal. Não faz sentido. Não é respeitar os eleitores apresentar-lhes um documento com 1500 artigos.

Cavaco Silva e Jorge Sampaio mostram--se preocupados com as condições de governabilidade caso não haja um governo de maioria. No meio da crise, é aceitável que o Partido Socialista forme um governo minoritário?

O PS não deve encarar outro cenário que não uma nova maioria. Uma nova maioria é essencial para a estabilidade.

Outra coligação, esta interna. Acredita que Manuel Alegre e a direcção do PS vão chegar a acordo?

Não me manifesto sobre a vida interna do PS. Desejo sinceramente que Alegre mantenha a sua capacidade de intervenção no PS, que é o seu partido natural.

Assusta-o o crescimento do Bloco?

Preocupa-me que um partido cujas propostas são de um radicalismo fora do tempo tenha o apoio que tem. Mas essa preocupação não é um susto.

Evocando Alegre, "falta esquerda ao PS". Acha que o crescimento do Bloco de Esquerda tem que ver com a tal falta de esquerda ao PS?

Em situações de crise as propostas extremistas colhem apoio. Não tem que ver com o posicionamento dos outros, mais ou menos à esquerda. O crescimento do BE tem explicações objectivas no quadro económico e social mais do que a relação de forças políticas.


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