Entrevista
Loureiro dos Santos: "Vamos continuar a ver guerras. A nossa paz é ilusória"
por Gonçalo Venâncio, Publicado em 18 de Dezembro de 2009
Em entrevista ao i, o general aborda os grandes desafios estratégicos na actual conjuntura internacional. As guerras, estão para ficar
A sala está repleta de espadas, punhais, condecorações e fotos de família. É a vida inteira de um militar em exibição. Passam poucos minutos das 11 horas da manhã quando o general José Alberto Loureiro dos Santos recebe o i na sua casa em Oeiras, um dia depois de ter lançado a sua mais recente reflexão estratégica: "As guerras que já aí estão e as que nos esperam - se os políticos não mudarem." O título denuncia as intenções do autor. Mais do que uma "reflexão", as 384 páginas da obra são um alerta para os decisores políticos nacionais numa altura em que ordem internacional assiste a reajustamentos geopolíticos sem precedentes. "Em toda a história global, não se conhece uma alteração das relações de forças global em tão curto período."
A crise internacional, que afectou em particular as economias ocidentais, funcionou apenas como catalisador para um processo que já estava em curso há 20 anos: "A globalização abriu as possibilidades de desenvolvimento máximas a vários países. Hoje são potências emergentes como a Índia, a China e o Brasil, que estão a promover uma rotação do poder do Ocidente para Oriente, e de Norte para Sul. Nunca, no mundo, houve uma situação deste tipo", afirma o general.
A configuração da ordem internacional depois destes reajustamentos até pode reservar surpresas para muitos. Mas uma coisa é clara para Loureiro dos Santos: vamos continuar a ter de lidar com os conflitos armados. "A humanidade e a civilização têm avançado muito mas há uma coisa que não mudou: a natureza humana. As razões que levam os homens a combater são as mesmas apontadas por Tucídides nas Guerras do Peloponeso."
A Europa vive hoje numa bolha de prosperidade, e muitos europeus acreditam que a guerra é um anacronismo. Porém, como avisa o antigo chefe de Estado- Maior do Exército, a paz Kantiana "é uma ilusão."
E quais são as guerras que nos esperam? "Há as guerras necessárias e há as guerras por escolha. No primeiro caso, são campanhas que os Estados decidem levar a cabo para defender os seus interesses nacionais. Para dar um exemplo, o Afeganistão. No segundo, é preciso perceber que motivações estão em causa e muitas vezes percebemos que não são interesses vitais de um país. Tem efeitos terríveis e o exemplo da intervenção no Iraque é elucidativo. Infelizmente, vamos continuar a ver das duas. "
África a Sul do Sara, Ásia (Centro e Sul) e América Central, regiões onde se multiplicam estados falhados e narco-estados, podem ser o palco para algumas dessas guerras "por necessidade" (ver caixas). Também ela globalizada, a guerra já não se faz - nem se fará - apenas com armas. Não é só na terra, na ar ou no mar. É também no ciberespaço e no palco mediático que, muitas vezes as, campanhas se resolvem.
A leitura do quadro geopolítico actual permite também a Loureiro dos Santos antecipar algumas das características da ordem internacional que se segue: "As cinco grandes potências, "ilhas de poder global" (Estados Unidos, China, Índia, Rússia e Brasil), constituirão o núcleo duro do governo mundial" apesar de os Estados Unidos continuarem a ser a maior entre as grandes potências. A multipolaridade está a caminho. E os diversos "G's" que vão surgindo são bem elucidativos das alterações na distribuição do poder global.
Para já, todos os actores vão tentando reposicionar-se. É um grande jogo, ou aquilo a que o general chama a liga das potências. "A Rússia e a China têm muito interesse que os Estados Unidos estejam no Afeganistão, no Iraque e envolvidos no dossiê nuclear iraniano. Porque enquanto isso acontece não têm os americanos a morder-lhes os calcanhares." Em Washington, o presidente Obama está alerta e tenta reduzir o esforço americano nos teatros de guerra. "Fazendo isso, os americanos ficam com grande margem de manobra para exercer influência sobre as restantes potências", assinala Loureiro dos Santos.
E Portugal, que papel? Europa, CPLP, NATO e Atlântico Sul são os caminhos para a afirmação estratégica nacional (ver caixa ao lado). Neste tabuleiro, os militares vão continuar a ser "um dos mais influentes instrumentos da política externa nacional" e acrescentam "valor estratégico ao país." Mas os desinvestimentos nas Forças Armadas e nas carreiras desapontam o general: "Fazem-se leis de programação que não se cumprem e continuamos com a espingarda que combatemos em África."
Tem mais informações sobre esta notícia?
Conte a sua história. Seja um iRepórter.
Artigo: Loureiro dos Santos: "Vamos continuar a ver guerras. A nossa paz é ilusória"
Actividade em ionline