Ambiente
Copenhaga. Medo, filas e Revolução Bolivariana
por Enrique Pinto-Coelho, Publicado em 17 de Dezembro de 2009
Guerra total entre polícias e manifestantes. As negociações avançam, mas muito devagar
Quando parecia que a situação na cimeira do clima não podia piorar - dentro e fora do Bella Center, o centro de conferências - a polícia antimotim dinamarquesa começou a distribuir bastonadas e gás pimenta. Mesmo assim, a vanguarda dos cerca de cinco mil manifestantes que rodearam de manhã o recinto conseguiu furar, temporariamente, o perímetro policial. A tentativa foi finalmente frustrada e terminou com a detenção de 240 pessoas.
No dia mais caótico da conferência das Nações Unidas (7 a 18 de Dezembro), a presidente, Connie Hedegaard, demitiu-se e cedeu o lugar ao primeiro-ministro dinamarquês, Lars Rasmussen. Hedegaard alegou questões de "procedimento" perante a presença de mais de 110 líderes mundiais na fase final da cimeira, que termina amanhã.
Outras fontes vincularam a renúncia com o descontentamento da futura comissária europeia do Clima pelo lento desenrolar das negociações, que continuam atoladas. "Os atritos continuam entre países em desenvolvimento e países desenvolvidos. Ou melhor, entre os Estados Unidos e a China", escreveu ontem a ONG portuguesa Quercus num blogue sobre a cimeira (copenhaga.blogs.sapo.pt/).
Na véspera, as conversações terminaram de madrugada, pouco antes do início das filas e das agressões à volta do Bella Center. Alegando "falta de transparência", a delegação chinesa rejeitou os rascunhos de acordo apresentados pela presidência dinamarquesa, que voltou de novo a ser acusada de defender os países ricos.
"Os ricos estão a destruir o planeta. Se calhar estão a pensar em ir viver para outro", pontificou o presidente venezuelano, Hugo Chávez, que aterrou ontem em Copenhaga. Outro recém-chegado, o presidente boliviano Evo Morales, criticou o "sistema capitalista" e exigiu um "tribunal de justiça climática para julgar" os países mais poluidores e "evitar que África sofra um holocausto climático".
Do continente africano partiu, precisamente, uma das tentativas para desbloquear o impasse nas negociações. O primeiro-ministro etíope, Meles Zenawi, propôs reduzir substancialmente os montantes das ajudas aos países em desenvolvimento, uma proposta bem recebida pelos futuros doadores. "Temos de ser flexíveis porque arriscamos perder mais que os outros", afirmou Zenawi.
Também houve avanços no REDD, um programa que visa a protecção das florestas. As massas florestais são gigantescos armazéns de CO2 - o principal gás com efeito de estufa - e podem servir como moeda de troca nas negociações.
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