Fernando Pessoa
Exclusivo i Fernando Pessoa: O português, um povo antagónico
por Pablo Javier Pérez López, Publicado em 17 de Dezembro de 2009
Mais um texto de uma série de 11 inéditos de Fernando Pessoa que o i vai publicar todas as semanas até 31 de Dezembro
O texto seguinte faz parte do dossiê preparatório da entrevista intitulada "O escritor Fernando Pessoa expõe-nos as suas ideias sobre os vários aspectos da arte e da literatura portuguesa" ("Revista Portuguesa", n.os 23-24, 13 de Outubro de 1923, pp. 17-22), que foi escrita pelo próprio Pessoa. O texto começa com as mesmas linhas da primeira resposta a essa auto-entrevista, embora as correspondências textuais não sejam exactas e grande parte das passagens deste texto não figurem na versão impressa de 1923.
Do dossiê preparatório da entrevista também constam outras folhas, nas quais encontramos afirmações igualmente interessantes: "Sejamos; com toda nossa alma, a Europa - mas a Europa do passado, do presente e do futuro, e entendendo-se por Europa todos os outros continentes tambem, naquillo que teem de aproveitavel para se viverem com a intelligencia" (BNP / E3 55F-43). Nestas linhas, Pessoa parece aspirar a uma identidade supranacional e cosmopolita, ou melhor, a ser, ao mesmo tempo, português e todas as outras nacionalidades. Para o auto-entrevistado, "Só duas nações - a Grecia passada e o Portugal Futuro - receberam dos deuses a concessão de serem não só ellas mas também todas as outras. Chamo a atenção para o facto, mais importante que geographico, de que Lisboa e Athenas estão quase na mesma latitude" ("Revista Portuguesa", p. 20).
Pessoa entende que existe no povo português uma excessividade congénita: "É nos sentimentos que somos typicamente desmedidos." Este excesso pode relacionar-se com uma certa necessidade de mito e de ebriedade, para o desejo de fundir "todas as cousas, para a todas possuir" - uma sensibilidade que o poeta, mau grado o tom crítico que transparece, terá instrumentalmente adoptado para sonhar e sentir tudo de todas as maneiras. Para Pessoa "um português não pode demorar-se numa fé, numa crença, numa opinião: tem que buscar inmediatamente a contraria, para perennemente se libertar". (BNP / E3 55F-41). O povo português anseia a pluralidade e não pode "viver a estreiteza estéril do catolicismo". Pessoa preferiria, conforme a entrevista, imaginá-lo destinado ao paganismo supremo, numa luta eterna consigo mesmo, num eterno sonhar acordado.
Pablo Javier Pérez López
Universidade de Valladolid
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