PRIMEIRO PLANO

O discurso económico

por João Cardoso Rosas, Publicado em 17 de Dezembro de 2009   
As divisões são normais num país democrático e pluralista. Os políticos ainda julgam que o discurso económico é aquele que menos divide
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O debate público em Portugal é dominado - para não dizer "submergido" - por questões económicas e financeiras: défice, dívida, crédito, desemprego, etc. Há quem possa pensar que isso é normal, dada a premência actual destas questões e a sua influência na vida de todos nós. No entanto, estas questões há muito que são urgentes e influentes, sem por isso terem tido o mesmo espaço mediático que ocupam hoje. O que mudou não foi a realidade; foi a nossa visão dela, ou o que nela consideramos ser prioritário.
Há um par de décadas, as questões políticas e institucionais eram consideradas mais importantes e os protagonistas dos debates não eram economistas, mas antes juristas ou sociólogos. Noutras sociedades, mesmo nossas coetâneas, as questões religiosas são as mais importantes e os debates são dominados por clérigos - mas isso está tão afastado da nossa experiência imediata que nos parece impossível. Por isso pensamos que a nossa visão da realidade, dando prioridade às questões económicas, é a mesma coisa que a própria realidade.
A percepção "economista", por assim dizer, da vida portuguesa reflecte-se nos políticos que escolhemos. O Presidente da República só se sente verdadeiramente à vontade a falar de assuntos económico-financeiros. Também o primeiro-ministro tem um perfil de tipo tecnocrático, mas, é justo dizê-lo, bem mais flexível. Quanto à líder da oposição - sim, ainda é ela, Ferreira Leite! -, já se sabe que basta desviar-se um milímetro do discurso sobre a economia ou as finanças públicas para nos fazer corar de vergonha com o que diz.
Em conformidade, na sociedade portuguesa evita-se debater seriamente outros assuntos.
Quando se fala em "testamento vital" ou outras questões de bioética há imediatamente quem venha dizer que isso não é urgente e que mais valia concentrarmo-nos no défice. Quando se refere o casamento entre pessoas do mesmo sexo, imediatamente nos advertem de que se trata de uma distracção em relação à dívida pública. Quando se fala do ambiente e do combate ao aquecimento global, logo alguém vem dizer que são "tretas" e que mais valia pensar no crédito às PME. Quando se refere a necessidade de reorganização administrativa do país lembram-nos que mais vale usar as forças no combate ao desemprego.
O que os nossos políticos-tecnocratas pensam, assim como muitos comentadores, é que tudo isto são questões que dividem os portugueses em vez de os unirem, por isso preferem evitá-las. O que não referem - mas é o mais importante - é que essas divisões são normais num país democrático e pluralista. Sem o dizerem, ou mesmo sem o pensarem, muitos julgam ainda que o discurso económico é o que menos divide, ou o que pode gerar acordo, porque é meramente técnico e neutro. Também nisto se enganam.
Professor universitário de Teoria Política



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