Editorial
O perigo do cepticismo
por Francisco Camacho, Publicado em 15 de Dezembro de 2009
A humanidade confirma a propensão para o abismo quando duvida do aquecimento global
Mil e setecentos cientistas britânicos assinaram uma carta a reafirmar que as alterações climáticas são reais e causadas pelo homem. Respondiam a mais uma manifestação de cepticismo perigoso, quando vários especialistas foram acusados de manipulação de dados sobre o clima, na sequência do desvio de emails da Universidade de East Anglia, uma referência na área. As acusações, em vésperas da Cimeira de Copenhaga, caíram em saco roto mas levaram este batalhão de cientistas a declarar "a maior confiança nas provas de aquecimento global", a lembrar que o fenómeno se deve "às actividades humanas" e a pedir medidas urgentes na Dinamarca.
O efeito de estufa resulta da emissão de dióxido de carbono, mas é curioso verificar como tanta gente responsável ainda duvida desta evidência científica ou da própria existência do efeito de estufa. Não há icebergue de 20 quilómetros à deriva no Pacífico que afunde esse cepticismo, nem cerco da tundra ao Árctico capaz de o descongelar.
A subida de tom das organizações ambientalistas, a propósito da evolução titubeante da cimeira de Copenhaga, tem sido classificada de catastrofista pelo lado da discussão que parece entregar o destino da Terra à divina providência. Enquanto decorre a cimeira, o tom usado pelos ecologistas é quase tão debatido como o assunto que realmente importa - o entendimento entre os países (os que já poluem muito e aqueles que vão poluir ainda mais) sobre o caminho que deve ser tomado para travar o aquecimento da Terra. É verdade que as palavras pesam muito neste diálogo que persegue um consenso do tamanho do mundo e que o tom histérico de alguns ambientalistas só prejudica a causa que defendem, reforçando a argumentação de quem continua a negar as responsabilidades do homem nas alterações do clima. O movimento ecologista, de um modo geral, tem sido desastrado na batalha da retórica, mas convém lembrar que o seu alvoroço não é propriamente gratuito. Há e sempre houve, descontando todos os aproveitamentos políticos, uma relação directa entre o alarme dos ambientalistas e a frieza da ciência. Nenhuma instituição científica credível põe em causa a existência do efeito de estufa nem que o fenómeno é uma consequência das emissões de dióxido de carbono.
O mesmo não se pode dizer sobre a corrente de negação, meio cínica, meio psicótica, que vê o aquecimento global como um exagero ou uma efabulação. À luz desta corrente, podemos todos confiar na ordem natural das coisas: as alterações climáticas das últimas décadas são tão espontâneas como todas as que ocorreram num passado remoto. É uma ideia reconfortante com a qual todos gostaríamos de viver mas, lamentavelmente, falsa. Estas transformações nada têm a ver com períodos glaciares e interglaciares, mas com o impacto da actividade humana na composição da atmosfera. Há dúvidas? Muitas, por incrível que pareça. Caso contrário, 1700 cientistas não tinham sublinhado com tanta veemência alguns factos que deveriam ser óbvios para todos.
Verdade ou dramatização? Em última análise, escolher uma resposta é um luxo que decorre do lugar do planeta onde se vive. Se o mundo inteiro fosse igual ao Bangladeche ou a Tuvalu, a Europa e os Estados Unidos não estariam a pedir em Copenhaga uma revisão do Protocolo de Quioto e os países em desenvolvimento não lhes exigiriam o cumprimento integral do acordo assinado em 2005. Estariam todos no mesmo barco, à beira do naufrágio, a lamentar o tempo perdido a conversar sobre o tempo.
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