Hotel

Saiba como dormir confortável com 7 graus negativos

Publicado em 15 de Dezembro de 2009   
O hotel do gelo reabriu na semana passada na Suécia. Ake Larsson, o arquitecto, fala ao i sobre o projecto
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Quanto estaria disposto a pagar para dormir num quarto com menos de cinco graus negativos? A pergunta soa a brincadeira, mas não é. Todos os anos, mais de 15 mil pessoas escolhem esta época para visitar o hotel do gelo, no norte da Suécia. O edifício de 2010 foi reinaugurado na semana passada e o i falou com Ake Larsson, o arquitecto responsável pelo projecto.

Quem lá vai diz que a experiência é única. E garante: por se dormir num quarto daqueles não quer dizer que se acorde feito um cubo de gelo. No máximo, avisam os mentores do projecto, acorda-se com a ponta do nariz fria. Embora a cama seja feita também em gelo, o segredo para manter o corpo a uma temperatura normal está nas peles de rena que revestem o colchão, e num saco cama térmico à prova de frio. E, claro, numa manhã seguinte reconfortante: meia-hora de sauna e um pequeno-almoço de luxo num edifício aquecido do complexo.

Com uma área total de 6 mil metros quadrados, o hotel tem 61 suites, decoradas por dezenas de arquitectos e artistas plásticos de todo o mundo. São eles que tornam o espaço único, graças a esculturas, peças de mobiliário e à decoração feita exclusivamente para cada uma das divisões. Há quartos com estátuas, bolas de neve gigantes, candelabros e muitos jogos de luz dentro do gelo.

Ake Larsson descobriu a arte de esculpir gelo em 1993, quando visitou a região, e não voltou a sair dali. "Sempre fiz esculturas em madeira, mas apaixonei-me por esta matéria-prima. É mais rápida de trabalhar e diferente de tudo, não podemos guardá-la." Além disso, "o facto de ser transparente permite-nos trabalhar em diferentes perspectivas. É totalmente experimental, não obedece a nenhuma lógica de construção".

Mais do que um lugar para passar uma noite diferente, o hotel do gelo é um laboratório vivo de arte contemporânea. A igreja, escolhida por centenas de casais para dar o nó, e o ice bar, onde as bebidas não levam gelo, são dos espaços mais procurados pelos visitantes. Ali, todos os objectos necessários ao dia-a-dia são reproduzidos na sua versão gelada: e isso inclui copos, mesas, talheres, pratos, que são utilizados uma única vez. Para se ter uma ideia, só em utensílios do bar são utilzadas 800 toneladas de gelo. 

UM ANO A PLANEAR

A construção do hotel é uma autêntica corrida contra o tempo, que começa em Fevereiro, com a retirada dos blocos do rio Torne. Nessa altura, o leito transforma-se num espelho compacto que será a base do edifício. "Temos de retirar os três mil blocos de gelo quase um ano antes. O gelo é sensível às mudanças de temperatura, não o podíamos fazer no pico do Inverno. Por outro lado, quando começámos a construir o rio ainda não está gelado."

O projecto passa do papel à realidade em apenas seis semanas, um tempo recorde cada vez mais apertado devido ao aquecimento global que atrasa a chegada do inverno. "Para começarmos, as temperaturas não podem ultrapassar os 7 graus negativos." O edifício começa a ganhar forma logo ao terceiro dia. Tem apenas um piso térreo, o que facilita a construção, muito inspirada nas viagens de Ake: "Quando comecei a trabalhar aqui, visitei várias cidades históricas europeias para perceber como eram construídas as catedrais", conta. O resultado é uma imagem de marca: os tectos do hotel são todos em arco, feito a partir de moldes que depois se cobrem de neve. "Ao fim de dois dias podemos retirar o molde. Com os blocos do rio fazemos as paredes e os pilares de sustentação."

Por esta altura, entre meados de Novembro e o fim de Dezembro, a pacata povoação de Jukkasjarvi, situada 200 quilómetros no interior do Círculo Polar Ártico, ganha nova vida. Apesar de praticamente não haver luz do sol, os 700 habitantes e 800 cães multiplicam-se: primeiro com chegada dos artistas, engenheiros de refrigeração e demais equipas, depois com os turistas.

A abertura é faseada: na primeira semana de Dezembro abre a recepção, bar e algumas suites. Nas semanas seguintes, são inaugurados a igreja e os restantes quartos. Se tudo correr como planeado, na noite de ano novo o hotel fica a funcionar em pleno. "Dependemos sempre do clima", salvaguarda Larsson, salientando a proximidade que isso proporciona entre artistas e hóspedes. "Dessa forma, podem assistir e até participar na construção de esculturas em gelo."

A ideia de que a obra se perpetua no tempo não se aplica a estes artistas. Frustrante? Não, é nesse pormenor que está toda a sua beleza. "Faz parte do processo, é inevitável. Quando chegam os primeiros raios de sol, em Abril, o hotel começa a derreter e a dirigir-se para o rio de onde foi retirado [o que demora, no máximo, um mês]. Não há nada mais belo do que devolver à Natureza aquilo que pedimos emprestado. É a filosofia deste trabalho. Para o ano nascerá um novo hotel."



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