Obrituário
Paul Samuelson. A vida do professor que ensinou economia ao mundo
por Gonçalo Venâncio, Publicado em 14 de Dezembro de 2009
Morreu "um dos maiores professores" que Ben Bernanke alguma vez conheceu
"Nasci economista a 2 de Janeiro de 1932." Neste dia, com apenas 16 anos, Paul Samuelson era admitido na Universidade de Chicago, onde daria início a uma carreira académica longa - oito décadas - e excepcional.
Primeiro americano a receber o Prémio Nobel da Economia, na sua segunda edição, Samuelson manteve durante toda a vida as qualidades que o Comité do Nobel viu nele, em 1970: "Mais do que qualquer outro economista contemporâneo, Samuelson contribuiu para aumentar o nível analítico da ciência económica. Pura e simplesmente reescreveu partes consideráveis da história da disciplina."
Nascido em 1915 numa família judaica abastada, Paul despertou para os problemas económicos depois de o seu pai ter perdido parte significativa do património familiar nos anos pós-I Guerra Mundial. Ainda no liceu, começa a estudar o mercado accionista. A tal ponto que, no boom bolsista dos anos 20, é ele quem faz a lista de investimentos do seu professor de Álgebra.
Paul não perde tempo e vai estudar para Chicago, a alma mater do pensamento económico conservador. É lá que se forma em Economia e conhece Milton Friedman, dando início a um dos mais titânicos combates intelectuais do século XX. Mesmo discordando de quase tudo, Samuelson e Friedman mantêm--se amigos. Já a relação com Chicago azedou: "Percebi as diferenças entre o que era ensinado dentro das salas de aula e o que ouvia nas ruas", confessou Samuelson. Desapontado com a academia e inspirado por Alvin Hansen, um distinto keynesiano, Paul muda-se para Harvard em 1935 e mais tarde, em 1940, estabelece-se definitivamente no MIT. A sua tese de doutoramento - "Fundações da Análise Económica" - descodificou toda a estrutura matemática por trás da economia e revoluciona a disciplina. "Foi um economista de grande formação matemática e toda a sua obra está ligada ao tratamento matemático de modelos. Rompe com a tradição literária da economia e volta à tradição empírica da disciplina de uma maneira muito matematizada", assinala Nuno Crato, Presidente da Associação Portuguesa de Matemática. Notavelmente versátil - "tinha a agilidade de um Nijinsky e a endurance de um corredor de corta-mato", como escreve o "The New York Times" -, Samuelson remodela o pensamento académico: "A matemática já era usada pelos cientistas sociais, mas Samuelson trouxe a disciplina para o mainstream, mostrando como chegar a sólidos modelos teóricos a partir de simples assunções matemáticas."
A prova está no livro a que Samuelson chamava "o meu bebé." "Economia" apresentou a economia e John Maynard Keynes a milhões em todo o mundo em 19 edições e 4 milhões de cópias vendidas em 40 línguas. "Nenhum estudante poderia voltar a ficar sossegado com as profecias económicas do século XIX, de que os mercados cuidariam do desemprego sem necessidade de intervenção governamental" lê-se no "Times". Em 2008, quando a maior crise económica desde a Grande Depressão rebentou - oitenta anos depois do nascimento do pensamento keynesiano - não se voltaram a repetir os mesmos erros. As lições de Samuelson mostraram às elites políticas e tecnocráticas mundiais a saída para a crise: aumento da despesa do Estado, corte de impostos e taxas de juro bem perto de zero.
Samuelson ensinou Ben Bernanke e uma mão cheia de futuros Nobel. Mas o aluno mais famoso foi John F. Kennedy. Depois de ter sido eleito em 1960, o presidente democrata pediu 40 minutos com o professor. Antes, um almoço a bordo de um iate que desiludiu o economista: "Esperava uma refeição sumptuosa mas comemos salsichas com feijão". Recordado como homem divertido e articulado, Samuelson morreu economista, ontem, em casa, com 94 anos.
Tem mais informações sobre esta notícia?
Conte a sua história. Seja um iRepórter.
Artigo: Paul Samuelson. A vida do professor que ensinou economia ao mundo
Actividade em ionline