Eleições
Manuel Alegre. Campanha presidencial está no terreno
Publicado em 14 de Dezembro de 2009
"Há um combate que vale a pena e chama por nós." Alegre está na rua e só lhe falta pronunciar a frase fatal
Há um "combate" que "vale a pena e chama por nós". Mas "para mudar, não para que tudo continue na mesma". "Basta ter esperança e acreditar no nosso poder, no poder dos cidadãos. Porque Portugal não é só de alguns, Portugal é de todos."
O homem que disse isto na sexta-feira à noite começou por assumir-se como "militante do Partido Socialista", "um homem de esquerda", "mas acima de tudo um português preocupado com a sua pátria". Uma palavra que se habituou a "dizer" e que escreve desde o seu "primeiro livro": "Porque sempre entendi que não devíamos deixar que a ditadura do Estado Novo dela se apropriasse."
O patriota chama-se Manuel Alegre e, depois de ter vencido o candidato oficial do PS, Mário Soares, há quatro anos, tem uma segunda candidatura a Belém no terreno.
O discurso de sexta-feira no Entroncamento marcou uma viragem nas intervenções de Manuel Alegre sobre as eleições presidenciais. Neste momento, para assumir o objectivo presidencial só falta agora a Alegre pronunciar a frase fatal "sou candidato". No Entroncamento, reconheceu pela primeira vez que o "combate vale a pena", embora não tenha declarado disponibilidade para a candidatura. "É uma questão que tenho comigo mesmo", disse Alegre na semana anterior, em Braga. Trata-se de saber se é efectivamente possível "mudar".
Desta vez, com discurso escrito e sem responder a perguntas dos jornalistas, Manuel Alegre falou de "novos caminhos" para um objectivo comum. "Para além das diferenças, há um objectivo que deve unir todos os portugueses. Esse objectivo é Portugal", disse Alegre. Mais "presidencial" e patriota o discurso não poderia ser. Por exemplo: "Portugal é uma magnífica obra da vontade humana. E enquanto for essa a vontade do nosso povo, Portugal continuará a existir."
Outro exemplo: "Eu não tenho dúvidas sobre a força dessa vontade do nosso povo. Olho à minha volta e vejo patriotas. Vejo gente com vontade de dar a volta a isto. Gente com esperança, que não se conforma e que está disposta a lutar por um país melhor, de que nos orgulhemos, e que possamos legar aos nossos filhos, um país mais justo e mais fraterno, mais próspero e mais decente do que o país em que vivemos hoje."
Para Manuel Alegre, "é tempo de repor o primado da política e da solidariedade sobre os egoísmos e os grandes interesses" e "é tempo de uma nova atitude, um novo sentido da responsabilidade e de novas respostas sociais, éticas e políticas".
Evidentemente, Alegre interpelou as esquerdas, o seu eleitorado natural: "Será que as esquerdas do nosso país, para além das diferenças dos seus projectos, não serão capazes de fazer um esforço para encontrarem um denominador comum à volta das questões essenciais como as políticas públicas, na educação, na saúde, na segurança social, na fiscalidade, na repartição dos rendimentos, enfim, no respeito pelos direitos sociais consagrados na Constituição?"
"Será que, tal como em outros períodos históricos, nomeadamente o 25 de Abril, não seremos capazes de ser de novo precursores e descobrir novos caminhos que dêem outro sentido à democracia e outra esperança aos portugueses?"
O discurso foi dirigido ao "povo" - "A nossa força, a força de Portugal, vem do poder dos cidadãos" -, mas Alegre falou também da questão política presente, a "ingovernabilidade", para defender uma "cultura democrática de negociação, da parte de todos, governo e oposições": "Não há problema em haver discussões fortes no Parlamento. Isso é próprio da democracia. E sempre é melhor um parlamento em que se discute do que não haver parlamento nenhum ou então a caricatura que havia na ditadura."
Ontem à tarde, interrogado sobre as presidenciais por um militante do PS no plenário que decorreu em Lisboa, José Sócrates afirmou que este não era ainda o momento para o debate interno sobre as presidenciais, mas garantiu que o PS apresentará o seu candidato. "Haverá um momento em que vamos discutir entre nós e assumir uma posição."
A questão é que a candidatura de Alegre está na rua. Irá o PS, à semelhança do que aconteceu há quatro anos, encontrar um candidato oficial que não Manuel Alegre? O sector soarista está a tentar convencer Jaime Gama a ser o candidato alternativo a Alegre, mas Jaime Gama nunca disse uma palavra em público sobre esta hipótese. Alguns dirigentes defendem que é impossível ao PS repetir nas próximas presidenciais a fractura de há quatro anos, mas de Sócrates ainda não se ouviu uma palavra. Uma coisa - dizem apoiantes alegristas - pode acontecer: Manuel Alegre desistir da candidatura e culpar o PS por isso.
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