Entrevista

Al Gore. "As alterações climáticas são a uma escala bíblica"

por Lloyd Grove, Publicado em 14 de Dezembro de 2009   
O ex-vice de Bill Clinton lança um ataque cerrado ao "lobby da poluição" e diz que tratamos a atmosfera "como se fosse um esgoto a céu aberto"
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Em "An Inconvenient Truth" - Uma verdade inconveniente - título do livro e do documentário premiado pela Academy of Motion Pictures Arts and Sciences -, Al Gore descreveu o apocalipse antrogénico resultante da poluição e do aquecimento do planeta. No seu último livro , "Our Choice: A Plan to Solve the Climate Crisis" - "A Nossa Escolha - Um Plano para Resolver a Crise Climática", Gore, de 61 anos, laureado com o Prémio Nobel da Paz, traça algumas soluções possíveis. Numa entrevista que deu na terça-feira, um dia depois de ter posto o Presidente Obama a par dos trabalhos da semana da conferência de Copenhaga sobre alterações climáticas, o antigo vice-presidente dos Estados Unidos louvou as ambições ambientais de Barack Obama e criticou os que negam as alterações climáticas que, na sua opinião, se preparam para fazer as coisas correrem mal no reino da Dinamarca.

Este livro é muito impressionante, e bonito. Escreveu-o?
Sim. Integralmente. Levou três anos.

O que o levou a escrever o poema sobre aquecimento climático que aparece no livro?
Bem, obrigado por perguntar. Eu tinha uma grande sinopse para o livro e acabei por compactar todas as actualizações dos dados sobre as alterações climáticas em aproximadamente 28 páginas. "An Inconvenient Truth" é 90% sobre a crise, suas causas e impactos, e 10% sobre as soluções. Este é o livro das soluções. Essas 28 páginas não tinham, de facto, cabimento em lugar algum. Fiz um corta-e-cola, andei com os dados para trás e para a frente e ainda era um bloco muito desfasado; voltei atrás e condensei tudo de maneira a tornar-se muito mais reduzido, e mesmo assim não funcionou.
Não me pareceu bem não fazer menção aos dados científicos actualizados, por isso tentei apertar aquilo mais e mais. E subitamente, uma noite, fui-me deitar preocupado com o assunto. Depois, quando acordei, uma linha veio substituir-se a três parágrafos e eu disse para mim próprio "Humm, deixa cá ver...". E assim, passei esse dia a aligeirar o texto; agarrei em todos os impactos e condensei-os em linhas únicas. Depois andei às voltas com elas e o resultado foi esse.

E foi muito bem recebido.
Sim, o que me surpreendeu bastante. E é o reflexo dos dados científicos. É um gosto adquirido, isto da poesia científica.

Quem está a ganhar a batalha das mensagens? Agora temos este mini- -escândalo em Copenhaga a propósito de mensagens de correio electrónico roubadas, escritas por climatólogos britânicos que, aparentemente, revelam falhas nos dados e esquemas para silenciar os seus críticos legítimos. Quem nega as alterações climáticas agarrou-se a isso "like ugly on an ape" [como a falta de beleza num macaco] como diria o primeiro George Bush. Qual é a sua apreciação da batalha da propaganda?
Ainda não li todas as mensagens de correio electrónico. A mais recente tem, ao que parece, mais de 10 anos. E são impressões trocadas em privado entre cientistas. Não vi nada que pusesse em causa de modo arrasador o consenso científico quanto às constatações da linha prevalecente. Não vi nada que tivesse de facto alguma substância. O que acontece é que há uma grande caixa de ressonância que beneficia de grandes financiamentos por parte dos poluidores de carbono e há muito apoio por parte de opositores ideológicos que pretendem que o governo não faça nada.

Já soube que Lionel Chetwynd (argumentista conservador de Hollywood) já apelou à devolução do seu Óscar?
Não sei quem é. Ao fim e ao cabo, não é nada de importante. Não é a primeira vez que os que negam as alterações climáticas tentam empolar uma questão trivial, tentando dar-lhe uma importância que ela não tem. Perguntou-me antes quem estava a ganhar o debate. O vencedor do debate é a Mãe Natureza. As alterações que estão a ter lugar na Terra são a uma escala bíblica. A calote de gelo do Pólo Norte tem tido, ao longo da maior parte dos últimos três milhões de anos, a dimensão dos EUA continentais e agora está a desaparecer a olhos vistos. Agora que o Oceano Glacial Árctico está a descongelar, já há emissões de CO2 congelado e a tundra avança em redor desse oceano. A subida do nível do mar está a acelerar e já começou o fluxo de refugiados. Assistem-se a sucessivas tempestades, secas, fogos e inundações de proporções-recorde em todos os continentes.

Essa mensagem está a passar? Há muita resistência no Congresso quanto a um sistema de bolsa de carbono e ao programa climático de Obama, por exemplo. A Environmental Protection Agency já anunciou: "Vamos instituir novas políticas por nossa própria iniciativa; não precisamos de nos dirigirmos ao Congresso". Claro que vai haver uma luta renhida a propósito disso. Os grandes interesses empresariais não querem gastar dinheiro, suportando os custos de novos regulamentos antipoluição. Como avalia a situação política?
[Os políticos] Conseguiram adiar a acção. Estabeleceram um calendário que, em muitos aspectos, faz lembrar o modo como as empresas tabaqueiras adiaram as recomendações do "surgeon general" (a alta autoridade de saúde pública dos EUA) em 1964, quando vestiram actores com batas de médicos e lhes deram cigarros, dizendo-lhes que olhassem para a câmara e dissessem às pessoas que não havia uma relação directa entre fumar cigarros e as doenças pulmonares. Isto é exactamente a mesma coisa. Há muito mais em jogo desta vez, e não devemos esquecer que há mais compatriotas nossos a morrerem anualmente por causa dos cigarros do que o total de baixas anuais dos EUA durante a Segunda Guerra Mundial. Ou seja, o impacto era grande, nesse caso. E, neste, é infinitamente maior. E estamos numa corrida contra o tempo, porque expelimos para a atmosfera, a cada dia que passa, 90 milhões de toneladas de poluição causadora de aquecimento.

Mas como se propõe convencer a classe política de que o esforço vale a pena? A maioria das pessoas pensa que vai custar muito dinheiro instituir muitas das reformas propostas para reduzir as emissões de carbono. E ainda não surgiram empregos verdes de um modo que se possa considerar significativo. Com efeito, Van Jones, o czar dos empregos verdes desta administração, tornou-se um problema de relações públicas e foi forçado a demitir-se.
Sim, mas os empregos verdes estão, de facto, a surgir. E tem havido um consenso francamente impressionante entre os mais diversos governos que são de opinião que agora, que as taxas de juro atingiram mínimos históricos, o único instrumento de política económica disponível é estimular a despesa. E a criação de infra-estruturas é a melhor maneira de o conseguir. A verdade é que as disposições para o estímulo verde constantes destes planos têm feito muita diferença.

Portanto, a maneira de passar do ponto A para o ponto B é continuar a tentar martelar a mensagem na cabeça das pessoas? Como se consegue fazer cumprir a legislação? Como se consegue fazer com que o Congresso aprove o acordo, seja ele qual for, que Obama faça em Copenhaga, dado o contexto de grande resistência política de que fala no seu interessante livro?
Como vamos ganhar esta batalha? Todos os dias procuro a resposta para essa pergunta. Organizei, e agora dirijo, a Alliance for Climate Protection, e temos programados muitos anúncios na televisão e na internet. Temos centenas de organizadores políticos, pagos, nas principais zonas de cada Estado. Mas os poluidores de carbono possuem grandes reservas de "dinheiro de guerra" e estão preparados para fazer quase tudo para defenderem os seus interesses. Se ganharmos distanciamento e apreciarmos esta questão sob uma perspectiva temporal mais alargada, constatamos que, nas duas últimas décadas, temos visto formar-se um enorme consenso na maioria das zonas do mundo quanto à necessidade de fazermos isto. Há mais de 70 chefes de Estado presentes em Copenhaga.

O que disse ao presidente ontem?
Foi uma conversa privada, mas muito positiva, sobre a comparência dele em Copenhaga, a legislação do Senado e ainda sobre o que se perfila para o primeiro semestre do ano que vem em termos de política de clima e energia. Foram estas as linhas gerais. Não me sinto à vontade para revelar pormenores sobre uma conversa privada; limito-me a dizer que não se falou de nada de momentoso.

Qual a sua reacção à previsível arengada nos jornais sobre as 1200 limusinas em Copenhaga e sobre o facto de alguns participantes da conferência se terem deslocado em jactos privados e, de maneira geral, ao gigantesco peso em termos de impacto de carbono de uma conferência deste tipo? Acha que é um grande ponto a favor da propaganda do outro lado?
Não considero esse aspecto assim tão importante. Os delegados têm de estar presentes na conferência. Os meios que usam para lá chegar, não sendo um aspecto desprovido de significado, são com certeza de importância muito relativa, não tendo nada que ver com a escala do que se debate nessa conferência. Parte do jogo da denegação passa pelos ataques pessoais a cientistas, a legisladores. Mas, sabe, no fim de contas, a realidade de tudo isto esmaga esses pequenos pormenores. E o sofrimento humano já começou. Eis como se passam as coisas nas zonas do Bangladeche: lá, as pessoas estão habituadas a grandes tempestades, e a um padrão de vida no qual muitos camponeses com culturas de subsistência refaziam as suas vidas de 20 em 20 anos. Agora teriam de reconstruir as suas vidas todos os quatro ou cinco anos, coisa que lhes é impossível, e por isso levantam arraiais e mudam-se para Daca, ou para outra das grandes cidades do Bangladeche. Há extensões de arame farpado em trechos da fronteira entre o Bangladeche e a União Indiana. O avanço de um metro da água do mar faz deslocar quase 20 milhões de pessoas, só no Bangladeche. A nível mundial, o número eleva-se a 100 milhões de pessoas. E eis-nos aqui, a olharmos para esta cena a desenrolar-se e a expelirmos os tais 90 milhões de toneladas todos os dias, como se a fina camada atmosférica que envolve o planeta fosse um esgoto a céu aberto. E o facto de isso conter mais calor é um dado científico tão provado como a gravidade que puxa esta caneta para o tampo da mesa. (Gore deixa cair a caneta.) Não tem nada de complicado. É uma pura questão de Física.

Quando se deslocar a Copenhaga na próxima semana, vai num voo comercial?
Ah sim, a partir de Newark.

A maioria das pessoas na sua posição deslocar-se-ia num avião privado, mas o senhor não pode porque, se o fizer, as pessoas vão comentar.
Não o faria, fosse como fosse.

Qual foi a sua reacção ao discurso de Obama sobre o Afeganistão?
Não me lembro de nenhum outro desafio de política externa tão complexo como o que ele tem agora entre mãos. Acho que ele fez uma opção difícil mas o êxito ou fracasso serão determinados pela execução do plano que traçou, além de vários outros factores que nem todos estão completamente sob nosso controlo. Mas a questão tem mais a ver com o Paquistão do que com o Afeganistão. É que, se os talibãs reconsolidassem o seu poder no Afeganistão, a capacidade dos grupos fundamentalistas do Paquistão de desestabilizar essa potência nuclear ver-se-ia grandemente reforçada. A maioria dos paquistaneses não quer que isso aconteça. E, no entanto, a nossa presença tem desvantagens próprias, a par dos aspectos positivos que encerra. Por isso, ele estava perante um desafio muito difícil, e acho que se saiu tão bem como se poderia esperar dele ou de outra pessoa qualquer.

Portanto, concorda com o que ele disse?
Sim, concordo, mas as partes mais difíceis do plano dele estão por vir. O problema não está no discurso: está na execução e no ajustamento a surpresas imprevistas, e que poderão existir em grande quantidade.

Parece que toda a gente fala do êxito do reforço militar no Iraque, mas leio todos os dias mais notícias de carnificinas. Ainda agora morreram 200 pessoas num atentado à bomba em Bagdade.
Bem, também isso é uma história ainda por concluir. Acho que tem havido progressos no Iraque nos últimos dois anos, e acho que eles têm agora uma hipótese de saírem de tudo isto enquanto nação estável. Mas estão longe de poderem cantar vitória. Intervir no Iraque foi, desde logo, um erro histórico, e foi intimamente associado ao erro catastrófico que foi o Afeganistão e, sobretudo, ao terrível erro de cálculo de deixar escapar Osama Bin Laden quando ele estava encurralado. Hoje em dia, as provas de que ele estava em Tora Bora são irrefutáveis. Ele estava num local de onde não poderia ter escapado facilmente se tivéssemos montado uma emboscada, e eles tomaram a decisão consciente, fosse por que razões fosse, de não lançarem esse assalto. O resultado directo foi que ele escapou. A retirada de tropas e de recursos de serviços secretos do Afeganistão para os disponibilizar para a invasão do Iraque veio criar esta trapalhada incandescente no Afeganistão, que acabou por cair no colo de Obama. O Iraque, o Paquistão e o Afeganistão estão indissociavelmente ligados.

O senhor passou pela cruz do debate sobre a reforma dos cuidados de saúde durante a Administração Clinton. Em que ponto pensa que estamos, nessa questão?
Bem, [o Presidente] Obama chegou muito mais longe do que nós. Conseguiu fazer aprovar uma lei importante na Câmara dos Representantes e está perto de conseguir a aprovação também no Senado, espero eu.

Se Deus e Joe Lieberman quiserem! A propósito, Joe Lieberman mudou ou continua a ser o mesmo homem que escolheu para ser seu parceiro de lista?
Bom, o que não mudou é que ele continua a ser meu amigo. A linha política dele, essa mudou, obviamente. Deixou o Partido Democrático. Mas ainda é meu amigo, embora não concorde com ele em muitos assuntos.

Porque pensa que ele mudou politicamente?
Isso é coisa que terá de lhe perguntar.

Acha que ele pode ser convencido a não ser uma força de bloqueio?
Mais uma vez, é uma pergunta que lhe tem de ser dirigida a ele.

Mas estou a perguntar-lhe a si! Afinal de contas, conhece a pessoa. Concorreu com ele a seu lado.
Se ele for permeável à mudança na proporção directa da quantidade de persuasão que lhe é dirigida, a resposta é "Sim". Isto porque estou certo de que há muita gente a tentar persuadi-lo.

Como é a sua relação com Bill Clinton? É óbvio que a relação sofreu uma grande evolução.
Sim, mas somos bons amigos, e ele esteve lá em casa, em Nashville, há algumas semanas. Foi uma visita muito agradável e prolongada, de umas três horas. Como disse, ainda há três ou quatro dias falei com ele ao telefone.

Como é a sensação de se ser rico?
Gosto muito mais do mundo dos negócios do que pensava que iria gostar. Nunca dei grande importância ao dinheiro e o dinheiro nunca me motivou, mas agrada-me o desafio que ele representa e é muito interessante. E construí uma estrutura empresarial que, pelo menos, me dá a sensação de estar a fazer o bem enquanto estou a fazer as coisas bem feitas.

Como se sente pelo facto de a sua conta de electricidade doméstica, no Tennessee, ser passada a pente fino todos os anos?
Bem, em primeiro lugar, a nossa casa recebeu, em 2007, uma certificação LEED (Leadership in Energy and Environmental Design) dourada, a segunda melhor. Envidámos esforços durante dois anos para obter uma alteração da classificação do terreno, de maneira a que nos fosse possível instalar 33 painéis solares no telhado. Abrimos sete poços geotérmicos. A electricidade que não podemos deixar de gastar, compramo-la de fontes renováveis, o que sai um pouco mais caro.

E tem a sorte de ter meios para a pagar. A grande maioria das pessoas neste país não tem posses para isso.
Um argumento perfeitamente válido. E é por isso que precisamos de políticas que tornem essas opções acessíveis a pessoas de rendimentos médios e baixos. E devem ser tornadas acessíveis, porque poupam dinheiro. O problema é que as poupanças não cobrem as despesas iniciais senão ao fim de alguns anos. E precisamos de tornar mais fácil o acesso de todos à instalação de isolamento, à mudança de janelas e lâmpadas e até mesmo à instalação de bombas de calor geotérmico e de painéis solares. Digo sempre que é importante que as pessoas mudem as suas janelas e lâmpadas, mas que é mais importante ainda mudarmos as nossas leis e políticas.

Exclusivo i/The New York Times

 

 



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