PRIMEIRO PLANO

Quem quer escutar o Presidente da República?

Publicado em 11 de Dezembro de 2009   
É tudo menos inocente a atitude do PS ao pretender convocar Cavaco à força para um jogo parlamentar de que não faz parte nem pode fazer
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A ideia foi lançada aqui neste jornal por António Barreto. Numa entrevista a Maria João Avillez, publicada no passado dia 29 de Novembro, o sociólogo defendeu "o envio de mensagens do Presidente à Assembleia". Barreto acrescentava uma evidência: está esgotada a famosa "cooperação estratégica" de Cavaco Silva e José Sócrates desde o conflito sobre o Estatuto dos Açores. Extintas as relações entre os dois órgãos de soberania, não restaria outro caminho que a intervenção do Presidente da República, ultrapassando o bloqueio institucional com o governo, através de mensagens directas para o Parlamento.

A tese de António Barreto, depois de deturpada e instrumentalizada, ganhou múltiplos adeptos no Partido Socialista a propósito da actual balcanização da Assembleia da República. Os mesmos dirigentes socialistas que antes das eleições sempre pediram a Cavaco Silva que estivesse calado e se abstivesse de participar no "jogo político- -partidário", exigem agora que desça do pedestal de Belém e apoie o governo antes da discussão do Orçamento do Estado.

Senador do PS numa democracia sem senado, António Vitorino aproveitou o habitual espaço à segunda-feira na televisão pública para defender que Cavaco não pode nem deve continuar fechado numa "torre de marfim" durante muito mais tempo e que vai ter de dar sinais de como avalia a estabilidade governativa. A expressão "torre de marfim" não foi propriamente utilizada no sentido bíblico e Vitorino foi secundado por diversos deputados socialistas, a começar pelo vice--presidente da bancada parlamentar, Ricardo Rodrigues - precisamente o mesmo que se tinha mostrado "estupefacto" com a manutenção do assessor Fernando Lima depois do célebre episódio das escutas em Belém.

É tudo menos inocente a atitude do PS ao pretender convocar Cavaco Silva à força para um jogo parlamentar de que não faz parte nem pode fazer. Integra uma estratégia de confronto que vem de longe. O mesmo PS que reduziu os poderes presidenciais com o Estatuto dos Açores quer agora pôr nas mãos de Cavaco a solução de um problema que este não criou. Cabe ao primeiro-ministro encontrar os consensos necessários para conseguir governar num Parlamento em que é minoritário por decisão eleitoral. A não ser que José Sócrates assuma em público que não tem condições para governar e que o país vive uma situação de crise política, para além de económica e social, o Presidente da República tem de se limitar ao seu papel de poder moderador.

P. S. (D.) "Fumei haxixe com uns amigos e, por acaso, só posteriormente percebi realmente o que tinha fumado." A frase de Pedro Passos Coelho em entrevista ao "Jornal de Notícias" é todo um tratado sobre o que um candidato a líder jamais deveria dizer. Passos parece uma cópia para pior de Bill Clinton, que pelo menos se lembrava de fumar marijuana na universidade, mas não tinha "inalado".

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