"Nunca tinha visto um palhaço numa Comissão Parlamentar" - vídeo

por Mariana de Araújo Barbosa e Sónia Cerdeira, Publicado em 10 de Dezembro de 2009   
Troca de insultos marca primeira reunião da Comissão de Saúde, com Ana Jorge a assistir
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"Há pouco estava a perguntar de onde saiu este palhaço que é o senhor", diz Maria José Nogueira Pinto, apontando para o deputado do PS, Ricardo Gonçalves, que estava a interrompê-la. Depois seguiu-se uma troca de "galhardetes" que teve lugar na Comissão de Saúde de ontem, na Assembleia da República, onde decorria uma audição à ministra da Saúde a pedido do PSD e CDS.

Ao longo das quase quatro horas, o deputado Ricardo Gonçalves fez vários comentários à parte, manifestando-se enquanto outros deputados - mesmo socialistas - falavam.

"Nunca tinha visto um palhaço permanente numa Comissão Parlamentar. Mas acho que o devem ter eleito para nos animar. É uma espécie de música de fundo", diz a deputada do PSD. "O deputado tem estado a insultar toda a gente num regime de total impunidade e portanto assumo pela primeira vez na actividade política chamar a alguém um palhaço."

Ricardo Gonçalves invocou a defesa da honra e respondeu a Nogueira Pinto: "Não fiquei nada ofendido. Não me ofende quem quer, só ofende quem entende que merece ofender-me. O que disse à senhora doutora enquanto estava a usar da palavra é que nenhum hospital é feito de novo, são feitos para substituir hospitais já existentes. A senhora doutora não domina esta área, veio de outra área, veio de outro partido. Está sempre a mudar de partido, nunca está em lado nenhum. Vende-se por qualquer preço para ser eleita por qualquer partido..." Enquanto Ricardo Gonçalves proferia estas últimas palavras, a ministra Ana Jorge levou as mãos à cabeça, abanando em sinal de não e tapando a cara.

"Não insultei ninguém, a senhora doutora é que me insultou. Chamar palhaço é sinal de sentido de humor e sentido de humor é sinal de inteligência", prosseguiu Ricardo Gonçalves. Para o deputado do PS o facto de tecer comentários enquanto os outros deputados têm a palavra são apenas "bocas regimentais": "Se não consegue pensar com qualquer aparte que se faça, não serve para deputada. Os deputados têm de estar preparados para receberem apartes, isto é regimental em qualquer Parlamento do mundo." Os ânimos continuaram exaltados: "Acha que é dona da verdade, que pertence a uma classe superior, que nós representamos a província e a senhora que é da linha de Cascais acha que pode dizer estas coisas. É inadmissível", disse ainda o deputado do PS.

Couto dos Santos, deputado do PSD e presidente da Comissão de Saúde, teve de intervir e ameaçar que os trabalhos seriam suspensos, apelando ao bom senso e "elevação" do debate: "Está muita gente excitada não sei porquê", afirmou, dizendo-se preocupado que a imagem da Comissão passada pelos jornalistas fosse tão só esta troca de insultos e não o propósito da reunião.

A reacção de Maria José Nogueira Pinto às palavras de Ricardo Gonçalves não se fez esperar. "Um deputado como o senhor não deve existir em todos os parlamentos. Ainda bem para eles, ainda mal para nós. Há pessoas que adquirem na vida um estatuto de inimputabilidade e tenho de considerar que é inimputável e sendo assim não há mais nada a dizer."

E o pingue-pongue continuou, com Ricardo Gonçalves a dizer que Nogueira Pinto "baixou o nível" e a chamar a oposição de "esquizofrénica". João Serpa Oliva, do CDS-PP, respondeu que o país precisava de educação.

Os outros deputados da Comissão condenaram o episódio, com Maria Antónia Almeida Santos, do PS, a afirmar que foi uma "expressão infeliz" de Nogueira Pinto e que a deputada "se excedeu". "Agradeço que não se volte a repetir chamar a um colega palhaço; ficamos todos mal." João Semedo, do BE, também se manifestou: "Nem os palhaços nem os esquizofrénicos merecem as palavras que ouvimos de vários deputados nesta sessão." Pelo PCP, Bernardino Soares estava tranquilo: "decerto vai sair mais desta audição para além do que aconteceu nos últimos minutos." Os trabalhos da Comissão Parlamentar de Saúde demoraram mais de cinco horas.

 

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