Fernando Pessoa

Exclusivo i Fernando Pessoa: A trindade de Cristo

Publicado em 10 de Dezembro de 2009   
Mais um texto de uma série de 11 inéditos de Fernando Pessoa que o i vai publicar todas as semanas até 31 de Dezembro
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No babélico espólio de Fernando Pessoa há alguns escritos identificados pelo acrónimo "JC", ou seja, pelas iniciais de Jesus Cristo. Muitos deles devem ser um pouco anteriores a 1910, quando o poeta, ainda adolescente, leu com fervor "La Folie de Jésus", de Charles Binet-Sanglé, e defendeu o diagnóstico da insanidade mental do autoproclamado Filho de Deus (cf. "Escritos sobre Génio e Loucura", edição de Jerónimo Pizarro. Lisboa: INCM, 2006, pp. 243-57).

Todavia, o texto que aqui se apresenta, encimado pela indicação "JC", deve ter sido redigido na década de 1920, pertencendo, portanto, a uma fase posterior, mais tardia, em que a figura de Jesus, erguida a símbolo de redenção, é considerada sob outra perspectiva. O protagonista é um Cristo "dolente" que monologa sobre a desventurada condição dos seres humanos e sobre o sacrifício de assumir todos os sofrimentos do mundo. Neste sentido, tal Cristo difere - e muito - do menino Jesus rebelde e brincalhão do poema VIII do "Guardador de Rebanhos" de Alberto Caeiro, e do Cristo vencido e desencantado que toma a palavra no primeiro acto do "Fausto". Recorrendo a metáforas simples de tom evangélico e baseando-se numa lógica dos contrários consubstancial ao "Eclesiastes", Pessoa cria um novo Cristo que fala numa linguagem humana e chega directamente aos corações, sem o filtro avassalador do dogma imposto pela Igreja de Roma.

Esta figuração de Cristo representa a síntese de três instâncias ontologicamente inconciliáveis: Deus, o Homem e Ninguém. No presente texto, Ele é o Messias de um verbo no qual transitam as linhas mestras dos principais teóricos da Teologia Negativa, do Pseudo-Dionísio a Escoto Erígena, de Meister Eckhart a Nicolau de Cusa, que preconizavam um conceito de divindade capaz de ultrapassar a distinção entre ser e não-ser. Só que aqui essas linhas convergem e ganham uma maior radicalidade, como nos confirmou Paulo Borges. Deus - um Deus com ressonâncias gnósticas - esconde, neste texto, o seu verdadeiro rosto por trás da cortina duma intersubjectividade na qual ecoa a poética da heteronímia.

Antonio Cardiello, Universidade de Lisboa


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