Cinemateca: os filmes da vida de Maria João Seixas

por Luís Leal Miranda, Publicado em 09 de Dezembro de 2009   
Nome da nova directora da Cinemateca é recebido com entusiasmo. A Maria João Seixas pedem uma casa mais aberta e plural, com o selo de qualidade de Bénard da Costa
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"Uma pessoa culta, simpática e fora dos lóbis", é assim que o realizador João Botelho descreve Maria João Seixas, nome avançado ontem para a direcção da Cinemateca Portuguesa - instituição órfã de director desde que João Bénard da Costa a deixou, em Janeiro, por motivos de saúde. A simpatia é reconhecida por quem há mais de 30 anos a vê na televisão ou ouve na rádio: Seixas começou como júri no programa "A Visita da Cornélia", em 1977, ao lado de nomes como Raul Solnado e Fialho Gouveia, e desde então colabora com a televisão pública, quase sempre em programas ligados à cultura. É actualmente um dos comentadores regular do programa "Um Certo Olhar", aos domingos na Antena 2.

A relação entre a jornalista de 64 anos e o cinema é muito próxima - ou familiar. Literalmente. Maria João Seixas foi casada com o realizador Fernando Lopes, cineasta que no seu último filme ("Sorrisos do Destino", que estreou há um mês) retrata o final da relação do casal depois de uma relação extra-conjugal desmascarada. Ao lado de Fernando Lopes, Maria João assinou parte do argumento de "O Delfim" e "Cinema". Esteve também envolvida no documentário "Lissabon Wuppertal Lisboa", sobre a coreógrafa Pina Bausch e conta com prestações breves em filmes como "Adriana" ou "Um dia na Vida".

O realizador João Botelho destaca ainda o trabalho de Seixas na divulgação do cinema português fora de portas com a distribuidora Uniportugal. "Apostou na divulgação do cinema português em alturas difíceis", sentencia. Sobre o novo nome para a Cinemateca, que será anunciado oficialmente no final da semana, o realizador José Pedro Vasconcelos espera que mude a "inclinação cinéfila e centralista do anterior director".

Arejar a casa
A partir de uma certa altura os nomes Cinemateca e João Benard da Costa fundiram-se. O Museu do Cinema, no número 39 da Rua Barata Salgueiro, em Lisboa, canalizava os gostos do seu director - bons gostos, escolhas ecléticas e sempre apaixonadas de um homem que esteve 18 anos à frente daquela instituição. Com a morte de Bénard da Costa, a 21 de Maio deste ano, a Cinemateca perdia não só o seu líder (que fazia parte da direcção desde os anos 80, apesar de só subir a director em 1991) mas também a sua identidade. Pedro Mexia assumiu o cargo de director interino e por lá ficou durante um ano a conduzir sozinho um cargo de dois lugares. Com a nomeação de Maria João Seixas como directora da casa do cinema, espera-se que as mudanças comecem em breve - e arejar a casa é uma prioridade.

"É importante abrir a Cinemateca a novos tipos de cinema", adianta Nuno Artur Silva, director-geral das Produções Fictícias sobre a casa que, completa, "estava demasiado fechada nos gostos de Bénard". Essa abertura começou quando Pedro Mexia foi escolhido para o cargo de subdirector, em Março de 2008.

O poeta e escritor, que se tornou director interino em Janeiro depois de Bénard da Costa se afastar, mostra-se satisfeito com a escolha de Maria João Seixas para o lugar deixado vago - "é uma pessoa capaz para o cargo e com quem eu tenho uma boa relação pessoal" - e aliviado por ver o trabalho dividido por dois: "Estava até um pouco ansioso para que esta situação se resolvesse. Esta direcção está feita para funcionar com duas pessoas e não apenas como uma."

Mexia foi uma escolha do então Ministro da Cultura, José António Pinto Ribeiro. A partir do Brasil, o advogado e jurista apoia a decisão da sua sucessora, Gabriela Canavilhas. "Maria João Seixas é uma pessoa perfeitamente capaz de dar continuidade ao trabalho de João Bénard da Costa." Sobre a demora para substituir Bénard, Pinto Ribeiro justifica-se com o timing eleitoral: "Já estavam marcadas eleições quando Bénard da Costa morreu e não era de bom tom fazer quaisquer nomeações nessa altura." O Ministro que sucedeu a Isabel Pires de Lima na pasta da Cultura, sublinha ainda o bom trabalho do escritor e poeta. "As condições de trabalho na Cinemateca nunca se deterioraram e Pedro Mexia fez um excelente trabalho."

Um pé na política Nuno Artur Silva destaca em Maria João Seixas a sua experiência em áreas como a política e gestão. A jornalista, nascida em Moçambique, foi assessora para a cultura do primeiro governo de António Guterres, mandatária nas candidaturas presidenciais de Jorge Sampaio e Mário Soares e na corrida à Câmara Municipal de Lisboa de Manuel Maria Carrilho. O "traquejo político", diz Nuno Artur Silva, "pode vir a ser muito útil na hora de fazer acordos com outras cinematecas e representar Portugal no exterior".



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