O Presidente Lula diz que o Brasil se encontra hoje numa situação de credibilidade financeira
Qual a influência do Brasil no mundo? O presidente Luiz Inácio Lula da Silva fala sobre o Campeonato Mundial de futebol em 2014 e dos Jogos Olímpicos de 2016, afirmando que há muito que o seu país "merece ter um peso maior no mundo". Sem grandes queixumes, acrescenta porém que foram os próprios brasileiros, governantes em primeiro lugar, que desperdiçaram "uma série de oportunidades".
Reclamando a ascensão do seu país, lembra que o Brasil vive num regime democrático, com liberdade de imprensa, partidos e sindicatos, ao contrário da China, concorrente sem outros atributos a apresentar que não sejam os económicos. Lula da Silva fala do papel responsável do Brasil na protecção eficaz do clima e apresenta como meta a redução das emissões de dióxido de carbono (CO
2) 36 a 39 por cento até 2020. Esperando que os "amigos europeus", os Estados Unidos e a China, possam seguir o exemplo, "um estímulo para os países mais ricos". É um plano muito ambicioso, como reconhece aliás o próprio presidente Lula da Silva.
A imprensa e as estações de televisão e rádio em todo o mundo festejam a ascensão do seu país como nova história de sucesso. Será que esta notoriedade se perderá em breve? É tudo só por causa dos 5% de crescimento, do Campeonato Mundial de futebol em 2014 e dos Jogos Olímpicos em 2016? De forma alguma. O Brasil já há muito tempo merece ter um peso maior no mundo. Mas, no passado, nós desperdiçámos uma série de oportunidades. De cada vez parecia que seria desta que o Brasil finalmente iria arrancar, mas depois tropeçámos nos nossos próprios erros. As consequências foram o caos económico, elevadas taxas de inflação e endividamento. Mas hoje a economia brasileira está forte. A crise não nos afectou grandemente, a nossa economia está a crescer e até oferecemos apoio ao desenvolvimento de outros países.
Por que razão será então que todo o mundo olha para a China como país do milagre económico - enquanto o Brasil é um "entre outros"? A população da China conta 1,3 mil milhões de pessoas, ou seja, onze vezes mais que o Brasil. É natural que toda a gente olhe para lá. Mas na China, as condições são totalmente diferentes. O Brasil é um país onde reina a liberdade de imprensa, dos sindicatos e a democracia; o nosso Congresso pode aprovar ou rejeitar as leis que propomos. Se nós praticamos a democracia - e ainda bem que o fazemos - isto significa que leva meio a um ano até uma lei entrar plenamente em vigor. Alcançar o que nós alcançámos é incomparavelmente mais difícil para um país democrático do que para um país em que o governo central tem um enorme poder.
Tem inveja do sucesso da China? Não, a China sempre continuará a ser um grande jogador. E se continuar a crescer e conseguir aumentar o poder de compra das pessoas, então isso será motivo de grande regozijo para os brasileiros: será um grande mercado para nós.
O Brasil tem sucesso sobretudo graças aos seus fornecimentos de matérias- -primas e géneros alimentícios às regiões da Ásia em crescimento industrial.O sucesso brasileiro tem muito a ver com o facto de as nossas relações comerciais, hoje em dia, serem muito mais diversificadas do que anteriormente - Estados Unidos da América e Europa, mas também América do Sul e América Central, África, Arábia, e Ásia. Dá- -nos estabilidade. Imagine se os Estados Unidos tivessem vivido a sua grande crise há dez anos! Na altura, o Brasil exportava 30 por cento das suas mercadorias para os EUA, hoje já só são 13 por cento, daí que os danos tenham sido mais pequenos. O diálogo sul-sul é tão importante para nós como o diálogo do grupo do G20. Nós queremos ajudar os outros a conseguir um desenvolvimento similar; queremos reavivar o diálogo da auto-ajuda que, no século XX, muitas vezes ficou esquecido. A elite brasileira sofria de uma perturbação da sua visão, apenas sabia olhar para a Europa ou os EUA.
A China oferece muito apoio ao desenvolvimento em África, sendo o objectivo a garantia estratégica do acesso às matérias-primas. Também é a sua segunda intenção?Não, nós não pretendemos ter uma hegemonia. Não queremos roubar a África. Queremos comprar as matérias-primas mas temos também de incentivar o processo de transformação que vai dar riqueza a África e criar empregos. É neste sentido que estamos empenhados em concluir as negociações de Doha em prol de um comércio mundial livre para que, no futuro, haja um maior mercado para os produtos vindos de África. Só para o Brasil não seria necessário travar este combate, pois temos muito sucesso com a soja, o café, o açúcar e a carne. As pessoas simplesmente não percebem que o que importa é criar mais consumidores no mundo.
É evidente que o senhor diz isso pois o seu país é um dos maiores países de exportação de produtos agrícolas do mundo.Quanto mais comida comprarem chineses, indianos e africanos tanto mais agricultura, fábricas e comércio precisará o mundo. Ao fim e ao cabo, todos ganharão com isso. Recorda-se de quanto dinheiro os tesoureiros dos países ricos acabam de transferir para os seus bancos a título de apoios? Consegue imaginar como o mundo poderia ser bonito se esse dinheiro todo tivesse sido investido no desenvolvimento dos países pobres? Há muitas discussões acerca disso nos encontros do G20. Durante muito tempo os governantes não se assumiram verdadeiramente como dirigentes e entregaram os mercados ao seu destino. A crise relembrou aos políticos o seu dever de fazer política. Não podemos repetir essa loucura toda. O tempo em que floresciam os paraísos fiscais, em que se pagavam enormes bonificações aos gestores e em que o objectivo máximo já não era a produção de bens, mas sim o comércio rápido com papel impresso, tem de acabar.
O seu país era considerado, até há relativamente pouco tempo, como brinquedo dos mercados financeiros. A ascensão do Brasil começou quando o seu antecessor, Fernando Henrique Cardoso, introduziu o Real, a primeira moeda estável desde há décadas.Fernando Henrique Cardoso teve a oportunidade de proporcionar ao Brasil o lugar que lhe é devido. Mas, no fim, faltou a coragem ao seu governo. No fim do seu mandato avizinhava-se um colapso, e quando o meu governo assumiu o poder, todos diziam: vai voltar a inflação, a política orçamental está errada. Foi então em 2003 que operei os reajustes orçamentais mais dolorosos da história. Queríamos fazer tudo para evitar mais inflação. E eis que, em 2004, a economia voltou a crescer 5,8 por cento.
Era uma política económica ortodoxa. Não a que se esperava do líder dos trabalhadores, Lula da Silva.É sobretudo a parte mais pobre da população que sofre com a inflação elevada. Nunca esquecerei o tempo em que fui líder dos trabalhadores e a inflação atingia níveis de 80 por cento. Sofria pessoalmente com ela, daí que para mim fosse sagrada uma política económica que prosseguisse um crescimento sem desvalorização da moeda. No Brasil não havia cultura para isso. Tivemos de provar que éramos capazes disso.
Teve de tomar medidas tão drásticas para que se acreditasse numa tal política? É que se dizia em todo o lado: o novo presidente do Brasil - um líder sindical socialista. Foi uma coisa que mexeu muito comigo. É que, com a minha eleição, foi eleito pela primeira vez um trabalhador metalúrgico para presidente. Tinha a sensação de não poder falhar como o Lech Walesa na Polónia, pois se falhasse seriam necessários outros 200 anos para que outro trabalhador metalúrgico pudesse chegar a presidente. Tinha de consegui-lo para provar à sociedade que qualquer um, independentemente da sua origem social, pode chegar a presidente. Os meus opositores dizem que não foi mais do que sorte. Mas, no fundo, qualquer governante precisa também de sorte.
Mas teve de facto bastante sorte, por exemplo na crise financeira mundial. Muitos críticos estavam à espera de que o Brasil estivesse entre os primeiros países a sucumbir......sim, tal como anteriormente na crise da Ásia, na crise da Rússia e na crise do peso. Mas nós tínhamos a certeza de que esta crise não iria abalar o Brasil com a mesma força como os outros países. A nossa economia estava forte e quisemos tomar as decisões políticas acertadas para ultrapassar a crise mais cedo.
Também jogava aqui o optimismo calculado?No auge da crise, em Dezembro do ano passado, fiz um discurso na televisão. As manchetes anunciavam uma catástrofe, as pessoas deixavam de ir às compras porque tinham medo de perder o emprego. Na altura disse às pessoas que a economia era como uma roda gigante que não poderia ficar parada. De facto era verdade - se as pessoas fossem às compras, se se endividassem, se perdessem o seu emprego, chegariam a uma situação difícil. Mas da mesma forma estava certo dizer-lhes que iriam perder o seu emprego ainda mais facilmente se não fossem às compras. É que no fundo era precisamente o consumo das pessoas com níveis de rendimento mais baixos que mantinha a economia a funcionar.
Disse aos mais pobres do seu país que deveriam estar menos preocupados com o gasto do seu dinheiro, no meio da crise?A força do mercado interno brasileiro e a nossa política económica anticíclica salvaram a economia brasileira. O Brasil encontra-se hoje, depois da crise, numa situação de credibilidade financeira em relação ao resto do mundo.
Mesmo assim, o maior problema, a desigualdade social, está ainda por re-solver. Durante um século, no Brasil, preocupámo-nos pouco com a questão social. A economia era forte, mas uma multidão de homens e mulheres não participava em nada nela. Agora temos de remediar os erros de antigamente e fazer participar essas pessoas para que o Brasil se torne num país verdadeiramente rico. Alcatroamos ruas nas favelas, levamos electricidade, saneamento básico, água, escolas, cultura. Deveria ter sido feito há anos.
Mas, no fundo, será ainda possível controlar esta situação?Talvez ainda vá levar uma geração até conseguirmos. Mas avançamos na direcção certa. Deixe-me dar um exemplo. Desenvolvemos um programa chamado "electricidade para todos" que liga gratuitamente as povoações mais afastadas do país à rede de electricidade. Atingimos 2,2 milhões de lares. Para o efeito colocaram-se 906 mil quilómetros de cabo - com esta quantidade poder-se-iam dar mais de 20 voltas ao mundo. Com isso criámos muitos empregos. E as pessoas que assim passaram a ter electricidade compraram 1,6 milhões de televisores, 1,5 milhões de frigoríficos e 998 mil aparelhos tais como ventoinhas ou leitores de CD.
A pobreza cria violência. Pode garantir a segurança dos Jogos Olímpicos que se vão realizar em 2016?Não se pode estabelecer uma ligação directa entre as duas coisas - violência e pobreza. No Brasil, há violência urbana cuja causa está no tráfico de droga, na criminalidade organizada e nos problemas sociais. Noventa e nove por cento dos brasileiros querem paz. Organizámos os Jogos Pan-americanos, não houve violência nenhuma. O único perigo de revoltas sociais no Brasil surge se não ganharmos a Copa de 2014 ...
O que faz concretamente para garantir a segurança dos jogos?Temos de melhorar a nossa política social. Além disso, criámos no ano passado a União das Nações Sul-Americanas (Unasur) no intuito de, entre outros, combater a criminalidade associada à droga. Temos de assumir responsabilidades e pôr ordem na nossa casa. Neste âmbito precisamos também dos Estados Unidos, no entanto eles não deveriam estabelecer uma base militar na Colômbia mas, sim, preocupar-se, tal como os europeus, com os seus consumidores de droga. Não queremos empurrar a culpa para ninguém, nós, sul-americanos, assumimos as nossas responsabilidades.
Nas negociações sobre o clima, o Brasil empenha-se de forma determinada a favor da protecção do clima. Como coaduna isso com o facto de o seu governo não ter parado até agora a queima da floresta tropical?No dia 23 de Setembro declarei perante a Assembleia Geral das Nações Unidas que, até 2020, iremos reduzir 80 por cento o corte e queima na Amazónia. E na verdade, no ano passado ainda foram queimados 12 500 quilómetros quadrados de floresta tropical, neste ano apenas 7000. Trabalhamos a sério. Vamos a Copenhaga com a promessa ambiciosa de reduzir as nossas emissões de CO
2. Também com inovações tal como a produção de aço "verde" em que o calor dos fornos de fundição é produzido exclusivamente a partir de carvão vegetal. Finalmente, o Brasil obriga-se a chegar em 2020 a níveis de emissões de CO
2 36 a 39 por cento mais baixos do que até agora anunciado.
Será que conseguirá? Efectivamente é um objectivo corajoso e um estímulo para os países ricos. Pois esses falam muito e fazem pouco. Temos de prevenir que os Estados Unidos empurrem a culpa para a China e vice-versa - os dois aproveitam-se disso para se descartarem da sua responsabilidade. Irei a Copenhaga e direi: o Brasil fará a sua parte. E quero saber se a minha grande amiga, Angela Merkel, se Gordon Brown e os meus amigos europeus farão o mesmo. Juntos podemos exercer pressão sobre a China e os EUA. Não queremos que Quioto se repita.
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