Vida

Profissões Criativas. Onde, quando e como surgem as ideias?

Publicado em 08 de Dezembro de 2009   
Dentro de um carro, na casa de banho, a passear o cão, de copo de vinho na mão ou a fumar um cigarro. O i desvenda-lhe os segredos de algumas das profissões mais criativas do país
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Inês Pedrosa, escritora

Escrever à noite é mais inspirador: os telemóveis não tocam, há silêncio

Diz que não tem um local específico para escrever, mas as condições em que o faz determinam a fluidez do texto. "É importante não ser interrompida. Nem ter o tempo contado, se tiver só duas horas para escrever não me sai uma linha", explica a escritora Inês Pedrosa. Por outro lado, a hora do dia também conta no momento de se sentar em frente ao computador. "A escrita flui mais à noite, os telemóveis não tocam." Foi o que aconteceu recentemente, quando escrevia a sua última ficção, "Eternidade e Desejo", numa residência artística em Nova Iorque. "Fazíamos apenas uma refeição conjunta diária. De resto, cada um tinha o seu horário." A escritora fez o seu: durante a noite escrevia, dormia de manhã e à tarde revia o que tinha escrito na noite passada. Resultado: num mês escreveu mais de 100 páginas. "Tornou-se muito mais fácil mergulhar no universo do livro." A inspiração é diversa e pode chegar de variadíssimas formas, seja uma história que lhe contam, ou situações reais. Mas deixa um aviso: um escritor não pode escrever apenas quando está inspirado. "O segredo é persistência de maratonista."

 

Jorge Cruz, músico

Inspiração? No carro, no supermercado, desde que tenha um telemóvel à mão

Aos dez anos foi para Angola e foi aí que começou a fazer canções.  A avó enviava as “TVGuia” para a mãe e ele ficava com a página do Top Nacional. “Lá não tínhamos acesso às músicas, por isso pegava na viola do meu pai para fazer os refrões a partir dos títulos. Sem conhcer as músicas.” Muitos anos depois, o destino do músico Jorge Cruz cumpriu-se: primeiro com os Superego, um power trio de Aveiro, depois nos projectos a solo como “O Pequeno Aquiles”, ou “Jorge Cruz”, com que editou dois discos. A viver em Lisboa há pouco mais de dois anos, este psicólogo de formação integrou o colectivo editorial FlorCaveira, e lançou recentemente o “Diabo na Cruz”. A inspiração? “Em qualquer lado. Aproveito muito as viagens de carro para pensar, e costumo ter muitas ideias”, conta. O segredo para não se esquecer é gravá-las num telemóvel. Depois ouve-as em casa, mas com uma regra: não estar concentrado exclusivamente nas melodias. “É importante estar a fazer outra coisa, a cozinhar, por exemplo. O meu lado exterior está dedicado a uma tarefa, enquanto o meu subconsciente amadurece uma ideia.”

 

Joana Vasconcelos, artista plástico

Desenhar em cima do capô de carros ou no atelier

Joana Vasconcelos correu Santa Maria da Feira de alto a baixo, com o director do Festival Internacional de Teatro de Rua da cidade. Tinha sido convidada para criar uma obra para a ocasião e até aquele momento as ideias não apareciam. De repente, quando já se ia embora de carro, olhou para o castelo e travou a fundo. Encostou o automóvel e com o director ao lado começou a desenhar a ideia acabada de nascer. Ali mesmo em cima do capô do carro. Rabiscou o diário gráfico, que traz sempre na carteira, e decidiu que ia fazer uma toalha para o castelo. “A inspiração pode surgir a qualquer altura, no carro, no atelier, em casa. As ideias andam sempre comigo. Até posso ter uma ideia na casa de banho.” O que nunca pode faltar é um caderno para apontar tudo. A artista plástica, condecorada pelo Presidente da República com a Ordem do Infante D. Henrique este ano, diz que pensa a desenhar. Quando não tem inspiração?“Não faço nada. Se não surgem as ideias, não me esforço. Aliás, já recusei projectos por não ter ideias para aquele local. As ideias ou são originais ou não existem.”

 

Nuno Crato, matemático

A passear na rua ou a conduzir também se resolvem problemas

“Nunca achei que ele tivesse imaginação suficiente para ser um matemático.” David Hilbert, o famoso matemático alemão, respondeu desta forma à notícia de que um aluno seu tinha trocado os números pela poesia. Ser matemático, inventar e resolver problemas exige tanta ou mais imaginação que qualquer profissão artística.Que o diga Nuno Crato. Mas não é sentado no escritório no Instituto Superior de Economia e Gestão (ISEG), em Lisboa, que tem ideias. Lá é para desenvolvê-las. As ideias, essas, nasceram antes e podem surgir enquanto passeia na rua, conduz o carro, ou antes de adormecer. Mas não se trata de um momento de iluminação divina, frisa Nuno Crato, professor catedrático e investigador. “As ideias dão trabalho”, explica. É preciso ler e estudar muito antes. Depois é deixar repousar a mente, que as ideias surgem. Acontece o mesmo com os bloqueios criativos. “Chego a sonhar com problemas matemáticos, mas não se resolve nada assim. Aliás, é até mau sinal, porque estou a ficar obcecado.”

 

João Mota, encenador

Deitado é quando surgem as melhores ideias

De olhos fechados. É assim que surgem a maior parte das ideias de João Mota. O encenador precisa de visualizar o seu trabalho. O maple lá de casa é provavelmente o responsável por boa parte das ideias de João Mota. “Deito-me, de pernas levantadas, e visualizo as ideias de encenação.” Mas não é só deitado que o encenador se inspira. Quando João Mota ia passear o  labrador lá para uma da manhã ninguém adivinhava que estava a trabalhar. O silêncio ajudava-o a pensar. O cão morreu este ano, mas já este mês João Mota vai ter outro companheiro de criação. A música também é essencial. “Cada peça tem um compositor. Para ‘O Camareiro’ ouvi Bach.” O encenador nem quer pensar em bloqueios. “Quando me acontece, fico fechado em casa ou então volto para a terra [Tomar]. Leio poesia, viajo e isso ajuda-me a ter ideias e a desbloquear. Preciso de criar um espaço vazio para me inspirar.”

 

Tiago Viegas, publicitário

Desbloquear o cérebro de copo de vinho na mão

Não é uma estatística científica, mas uma ideia para um anúncio publicitário demora em média três dias a surgir. Quem o diz é Tiago Viegas, director criativo da Brandia Central. Para lá chegar, garante, “é preciso dizer muitas asneiras”. “Nisto da criatividade, a qualidade vem sempre da quantidade.” E do erro:é errando muito que se exercita o cérebro “e se percebe o que funciona ou não”. A primeira etapa deste criativo passa, todavia, pelo sofá da agência, de auriculares nos ouvidos, depois de pesquisar “o máximo de informação sobre o assunto”. Ométodo varia entre os profissionais, mas quase todos precisam de um momento a sós, de silêncio, ou simplesmente de deixar o subconsciente actuar. Quando está bloqueado, Tiago recorre a outros métodos: “uma garrafa de vinho, ou gin tónico, costuma resultar”.

 

Leonel Pareira, chefe

Paladar mental: as ideias mais saborosas nascem dos sonhos

É um chefe com um percurso invulgar. Nunca quis ser cozinheiro, mas hoje é o responsável máximo pela restaurante gourmet do Hotel Sheraton, em Lisboa. Quando procura inspiração, Leonel Pereira mete-se no carro efaz uma curta viagem até ao Cabo da Roca. “Podia trabalhar e viver ali. Um lugar mágico, que representa muito bem duas coisas muito presentes em mim: o mar e a montanha.” Foi dali que o chefe trouxe a ideia de um prato a que chamou “Corais”. Diz que, se pudesse, comprava um iPod para os clientes utilizarem enquanto degustavam a sua mais recente criação. Banda sonora? “O mar, as ondas.” Mas não é apenas da paisagem que vive a inspiração deste algarvio. Por vezes acorda a meio da noite noite cheio de ideias para novos pratos. Chama-lhe o paladar mental. “Consigo sentir os sabores. De manhã, com o caderno cheio de notas.”

 

Susana Vassalo, arquitecta

Paredes a ruir ou estendais da roupa ajudam a criatividade

Até os estendais da roupa são inspiradores, garante a arquitecta Susana Vassalo. O desafio era tornar a Rua Galerias de Paris, no Porto, mais confortável no Inverno para um concurso de ideias da Universidade do Porto. Susana decidiu vaguear pela cidade à procura de inspiração. Quando deu por si, estava na zona da Ribeira, nas ruas cheias de estendais e aí fez-se o clique. “Lembrei-me de cobrir a rua com um layer de toldos, que se entrecruzavam, tornando a rua menos fria e mais acolhedora.” Resultado: venceu o concurso. Com 28 anos, Susana diz que a inspiração vem do sítio onde vai trabalhar. “A inspiração para mim nasce do momento da criação, nunca abro um livro de arquitectura nessas alturas.” Agora, vai restaurar uma antiga casa de família e é no meio das paredes a ruir e janelas partidas, que encontra as respostas. E se as ideias não surgem, fuma-se um cigarro e faz-se uma pausa. “Como trabalho com mais dois colegas debatemos muito os projectos e temos ideias em conjunto.”



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