Entrevista

"O Felipão batia com tanta força que o Dadá até via estrelas"

por Rui Miguel Tovar, Publicado em 08 de Dezembro de 2009   
O herói do primeiro campeão brasileiro (Atlético Mineiro-1971) jogou com Scolari. E fala na terceira pessoa
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O Rio de Janeiro está em festa. Parece um cliché, mas acredite que é coisa rara, se nos reportarmos unicamente ao futebol. Porque é difícil agradar a gregos e troianos. Ou, neste caso, a Flamengo, Vasco da Gama, Botafogo e Fluminense - os dois primeiros foram campeões da 1.a e 2.a divisões brasileiras, os outros dois evitaram a descida na última jornada, aquela que coroou o Mengo hexacampeão, ao fim de 17 anos de seca.

O Rio está em festa mas o i não foi por aí. Foi à procura do herói do primeiro Brasileirão, realizado em 1971 e ganho pelo Atlético Mineiro, de Belo Horizonte. Ele chama-se Dario José dos Santos, mais conhecido como Dadá Maravilha, o primeiro rei do marketing com aquelas frases folclóricas.

É o terceiro melhor marcador brasileiro de sempre, com 926 golos (sem particulares), jogou em 18 clubes, ganhou o Mundial-70 ao lado de Pelé e defrontou Scolari no Estadual gaúcho. Ah, é verdade, e fala na terceira pessoa. Mais engraçado parece impossível. Como o título brasileiro do Flamengo, que era 7.o classificado no final da primeira volta, a oito pontos do líder Internacional.

Bom dia, Dadá. Falo do jornal i, de Portugal. Você foi o melhor marcador do primeiro campeonato brasileiro, em 1971, e...
As equipas ganhavam sempre com o Dadá em campo...

Mas não ganhou o título brasileiro pelo Flamengo em 1973.
Pois não, mas ganhei a Taça Guanabara [Estadual do Rio]. E com golos do Dadá. Digo mais, até nos tempos de hoje, quando o Dadá entra numa peladinha, é o melhor. Pergunta ao Jardel.

O Mário Jardel?
O Super-Mário Jardel. Esse mesmo. Há um ano, o Dadá estava de férias no Ceará e o Jardel organizou um jogo no seu campo lá de casa. O Jardel escolheu as equipas e a dele era mais forte do que a do Dadá. Foi 10-8, o Dadá marcou oito e o Jardel só seis.

Voltemos ao início. O Flamengo é o mais novo campeão brasileiro. Há 38 anos foi o Atlético...
E o mundo desabou: 8 de Dezembro de 1971, quando a equipa do Dadá ganhou ao Botafogo por 1-0, no Maraca [abreviatura de Maracanã]. O golo foi do Dadá, claro. De cabeça. E olha lá que nesse dia eu estava lesionado. Na véspera, fracturei o pé direito durante a final do campeonato de ténis de mesa, com o Telê Santana [treinador]. O jogo acabava aos 21 pontos e estava 20-20. Aquele ponto era o decisivo. E o Telê a servir. Ele deu num canto e eu fui, ele deu no outro e eu fui, aí ele fingiu que dava para ali e atirou para aqui e craccccc. Só ouviu o estalo, caí, gritei e saí de maca.

Então como é que jogou?
O médico Gregório disse ao Telê que eu não estava em condições de jogar. E o Dadá, todo torto. Gregório passou a noite praticamente a fazer tratamento em mim. Para ser sincero, até dormi com ele. Só fiz um pique em todo o jogo e foi golo. Quando o jogo acabou, os meus companheiros choravam de alegria. Dadá chorava de dor. O pé esquerdo do Dadá estava tão inchado que foi o Gregório quem me tirou a chuteira. Não tinha condição de entrar, nem pelo pé, nem pela coluna. A loucura que eu fiz. No dia seguinte à conquista, já em casa em Belo Horizonte, recebi uma montanha de telefonemas dos companheiros da selecção brasileira do Mundial-70. O Pelé (Santos), o Tostão (Cruzeiro), o Gérson (São Paulo), o Jairzinho (Botafogo), o Ademir da Guia (Palmeiras), o Rivelino (Corinthians), os camisas 10 dos favoritos ao título desse ano. Dadá merece uma estátua.

Só uma?
Cara, você tem quantos anos? 32? Ahhhh, muito novo. Quando você nasceu [1977], já o Dadá era o maior. Já o Dadá tinha sido campeão do mundo e campeão brasileiro. Já o Dadá tinha sido convocado por ordem do presidente da República [Emílio Garrastazu Médici] para o Mundial-70. Até costumava dizer que só havia duas coisas que o Dadá não sabia fazer: jogar futebol e falhar golos. Para cabecear, sou o maior do planeta. Só se em Júpiter, Marte, Saturno ou Neptuno houver alguém. Os outros são goleadores. O Dadá está acima deles. Dadá é uma máquina.

E os defesas rivais?
Não conseguiam travar o Dadá. Por falar nisso, você lembra do Felipão, aquele que treinou o vossa selecção? É um grande amigo do Dadá. Dá um abraço nele, por favor. Ele é um cara cinco estrelas. Sabe porquê? Porque ele fazia o Dadá ver estrelas. Ele batia no Dadá com força e vontade, hein?! Vai 'zagueiro' [defesa] perna de pau! O Dadá jogou muitas vezes com ele, no Estadual gaúcho. O Dadá no Internacional e o Felipão no Duque de Caxias. Já agora, dá outro abraço no Peres.

Aquele português, campeão brasileiro pelo Vasco da Gama em 1974?
Isso, que também passou pelo Sporting e pelo FC Porto, como o Jardel. Só me dou com essa gente fina [gargalhadas]. Grande pessoa e óptimo jogador. Jogámos juntos no Sport Recife em 1975. O Sport não ganhava nada há 12 anos e o Dadá lá teve de ser campeão, com um recorde de dez golos numa só partida [14-0 ao Santo Amaro]. Mais uma vez, você não tinha nascido. É uma pena, senão registava os meus feitos na hora.

E quando você nasceu, já estava escrito que seria avançado?
Que nada. O Dadá nasceu pobre e cresceu pobre. Só soube o que era o futebol aos 19 anos. O Dadá nasceu no Rio de Janeiro em 1946 e viveu nos subúrbios nos primeiros anos. O Dadá passou por muito e viu a sua mãe morrer queimada ateada pelo fogo. O Dadá só tinha cinco anos e o pai não tinha condições para o criar. Então, ele deixou o Dadá no Serviço de Assistência aos Menores, actual Funabem [Casa Pia portuguesa]. Foi lá que aprendi a jogar futebol. Foi lá que comecei a comer decentemente. Um pãozão com manteiga, um cafezão num canecão.. Um bifão a cavalo. Aqueles ovos estrelados que pareciam dois discos voadores. Por isso, o Dadá saltava mais alto que todos.

Amanhã, não perca a entrevista ao Zico, o ídolo da massa flamenguista.


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