Vai-se nutrindo, em plena crise causada pelo liberalismo económico, um senso comum que mistura autoritarismo político e económico
A falta de pluralismo no
debate televisivo sobre
economia pode dizer-nos muito sobre a conjuntura política nacional. Comecemos pela teoria política: indica-nos
Antonio Gramsci que a resolução política de uma brutal
crise económica não é evidente e depende das interpretações que se tornam senso comum e factor de mobilização ou de desmobilização popular.
Concretizemos: as
elites nacionais, enquanto não arranjam solução melhor, tentam criar as condições que favoreçam convergências duradouras entre um
PS enfraquecido e ideologicamente desorientado e a
extrema-direita parlamentar. Procuram placar a influência nas
políticas públicas, onde está a fruta doce, da esquerda que têm razões para temer.
A
televisão é sempre uma peça essencial da história política que se vai fazendo.
Noam Chomsky e
Edward S. Herman, num livro já clássico de economia política dos
media - "
Manufacturing Consent" (Construindo o Consenso) -, desenvolveram um modelo de propaganda sistemática que explica como os grupos mais poderosos, ligados aos interesses empresariais ou ao governo, condicionam subtilmente aquilo que se pode ler, ouvir e ver nos meios de maior alcance. Sinceramente, acho que o mundo dos negócios, muito menos escrutinado, é mais eficaz nesse propósito do que o governo.
O facto de as estrelas do jornalismo televisivo, no contexto de redacções fragilizadas pela precariedade laboral e pela perda de poderes dos conselhos de redacção, terem hoje níveis de remuneração que as aproximam dos círculos do privilégio económico ajuda à festa ideológica. Nem o serviço público de televisão escapa.
O último "
Prós e Contras" sobre o défice foi um bom exemplo: gestores do chamado
Compromisso Portugal e
académicos neoliberais ou
conservadores, moderados por uma jornalista que acha que a democracia e os sindicatos são um obstáculo às reformas necessárias. A arte de construir consensos passa por nem sequer ser necessário escrutinar o sentido da palavra "
reforma".
Assim se vai nutrindo, em plena crise causada pelo liberalismo económico, um senso comum que mistura autoritarismo político e económico.
João César das Neves assinalou, neste Prós sem Contras, a sua esperança nos efeitos do medo. Uma jornalista canadiana,
Naomi Klein, tem precisamente investigado a forma como se instiga o choque e o pavor para assegurar o consenso passivo das classes subalternas em momentos de crise.
A função do pensamento económico único torna-se clara: assustar e assim esconjurar todos os espectros das alternativas de reforma progressista que circulam por aí. Resta a esperança de que a eficácia deste consenso medroso, em gestação televisiva de plano inclinado, esteja sobrestimada.
Economista e co-autor do blogue Ladrões de Bicicletas
Actividade em ionline