Mundial-2010

Coreia do Norte: a missão é defender, mas quem está na baliza queria marcar golos

por Rui Catalão, Publicado em 05 de Dezembro de 2009   
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Falar sobre a selecção norte-coreana chega a ser mais difícil do que pronunciar o nome dos jogadores que a compõem. A informação é rara - para não dizer inexistente - e, quando existe, nem sempre é fiável. Ainda assim, é um dado adquirido que o caminho até ao Mundial-2010 se fez com muitos sacrifícios, sobretudo quando se fala em defender: é proibido pressionar o adversário para lá do meio-campo - nem mesmo Jong Tae Se, o único avançado coreano, está dispensado de defender com tudo o que tem - e apenas três ou quatro jogadores têm autorização para apostar em tarefas mais ofensivas.

A disciplina é a arma mais forte desta selecção, cuja campanha se fez com poucos golos. Em 14 jogos, marcou onze e sofreu apenas cinco. Isto não quer dizer que a defesa, habitualmente composta por Cha Jong Hyok, Ri Jun Il, Ri Kwang Chon, Pak Chol Jin e Pak Nam Chol, seja um fortaleza intransponível. Muito pelo contrário. Provavelmente, nenhum destes jogadores teria lugar em equipas como a vizinha Coreia do Sul ou o Japão. O segredo está na concentração com que encaram cada jogo.

O expoente máximo da filosofia por trás deste sucesso é o guarda-redes Ri Myong Guk. Aos 23 anos, joga no Pyongyang City - uma das melhores equipas da principal liga norte-coreana - e é titular indiscutível na selecção. Apesar de sempre ter sonhado em vestir a camisola do seu país, os objectivos de Ri passavam por pisar terrenos mais adiantados no relvado. Quando chegou ao Pyongyang City, queria marcar muitos golos para um dia chegar à selecção. Mas o treinador Kim Myong-chol fez-lhe uma sugestão: "Vai antes para guarda-redes." A explicação era simples: o técnico sabia que a Coreia do Norte tinha mais problemas em preencher (com um mínimo de qualidade) a vaga da baliza. Ri Myong Guk aceitou a ideia e durante meses trabalhou para transformar o corpo e criar instinto de guardião. Saltou e rebolou vezes sem conta até estar ao nível que lhe era exigido.

Ri vai chegar à África do Sul com o estatuto de herói nacional. Não só pelo sacrifício, mas também pela segurança que devolveu à baliza norte-coreana. Aliás, até ficou conhecido como o "Guarda-redes da Muralha de Ferro", o que também diz muito sobre a forma como a selecção orientada por King Jong-Hun se organiza em campo.

Apesar de todo a dedicação com que promete abraçar o desafio, a Coreia do Norte é o elo mais fraco e só por milagre poderá escapar ao último lugar de um grupo que já conhecido como o da morte.

A primeira e única presença na fase final de um Mundial (em 1966) ficou na história como uma das melhores campanhas de uma selecção asiática. Deixou a Itália pelo caminho no grupo 4 e apenas caiu aos pés de Portugal, nos quartos-de-final. A equipa das quinas foi responsável pela eliminação e quis o sorteio que ambas voltassem a encontrar-se, 44 anos depois.


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