História

Será este homem Fernando Pessoa?

por Vanda Marques , Publicado em 05 de Dezembro de 2009   
Manoel de Oliveira terá filmado o poeta. Os investigadores dividem-se na análise do facto histórico
Opções
a- / a+

São 14 segundos de película a preto e branco, em que vemos um homem alto, elegante, de bigode e com chapéu. Traz uma bengala na mão esquerda, na direita um cigarro e conversa com outro homem mais baixo. Estávamos em 1926, no Festival das Flores, no Porto, e quem filmava a imagem de rua era nada mais nada menos do que o realizador Manoel de Oliveira. Mas o mais interessante era quem ele filmava.

No meio da multidão, destacava-se um homem de 1,52, fato escuro: o poeta José Régio. A seu lado, alto e de bengala, estaria Fernando Pessoa. "Aproveitei estas imagens de actualidade para incluir no filme 'Porto da Minha Infância'. Acho que é Fernando Pessoa. Tenho a certeza que era o Régio, mas o Pessoa não posso garantir. Mas se não é ele, é muito parecido", diz Manoel de Oliveira ao i. Os frames apareceram pela primeira vez no filme de 2001 onde o realizador afirma que se trata do autor de "Mensagem": "Pela semelhança e por estarem parados a posar, são por certo os poetas Fernando Pessoa à esquerda e José Régio."

Quando estreou, ninguém falou muito no facto de o realizador mostrar a única gravação em filme do poeta mais marcante do século XX. Até à data só se conheciam fotografias. Foram precisos dois italianos, Carmine Cassino e António Cardiello, e o luso-colombiano Jerónimo Pizarro para lançarem o debate. É ou não é Fernando Pessoa?

Se for verdade, a biografia do poeta tem de ser alterada, para incluir uma viagem ao Porto. Além disso, estaríamos a presenciar um momento histórico: o nascimento da relação entre José Régio e Fernando Pessoa. Já que um ano depois, Pessoa colaborou na publicação da revista "Presença". Mas a sobrinha do poeta, Manuela Nogueira, que o conheceu pessoalmente, diz que não é o tio.

Redescoberta Foi sentado no sofá em sua casa que Carmine Cassino, investigador de história da Universidade de Lisboa, viu o filme de Manoel de Oliveira e percebeu a importância daquela imagem. Avisou de imediato o colega António Camiello, doutorando da Universidade de Lisboa. "Comparámos o filme com a sequência de fotografias de Fernando Pessoa a andar no Chiado e reparámos que é o mesmo andar. Se olharmos com atenção para o rosto, principalmente as sobrancelhas e o nariz, vemos muitas semelhanças. Até a forma como ele mexe o braço direito para fumar é parecida", explica ao i António Camiello. Juntamente com o investigador pessoano Jerónimo Pizarro, decidiram lançar o debate na Internet e a polémica instalou-se. "Além das semelhanças físicas, o período entre 1920-28 é o menos conhecido na biografia de Pessoa. Deixou de escrever com tanta assiduidade e é possível que tenha estado no Porto nessa época", diz Pizarro.

No blogue http://umfernandopessoa.blogspot.com começou o debate e Nuno Hipólito, autor do livro "As Mensagens da Mensagem", defende que o vídeo não é de Pessoa. "Lembro-me de uma fotografia em que se dizia estarem Pessoa e Aleister Crowley (um famoso ocultista da época). Havia dúvidas se era realmente Pessoa e acabou por se esclarecer definitivamente que não era, por várias razões, entre elas pormenores fisiológicos, a cara, a bengala."

Outro detalhe. O passo não batia certo com os filmes feitos a partir das fotografias. "Pessoa parecia demasiado "desengonçado", com movimentos de braços demasiado amplos. Temos testemunhos da época que dizem que o passo dele era muito leve, que parecia quase "não tocar o chão" ao andar. Isso não bate certo com o filme de Oliveira", defende.

Manuela Nogueira, sobrinha de Pessoa, também acha que não é Fernando Pessoa. "Tenho 99% certeza de que não é o meu tio", afirmou ao i. A escritora diz que já tinha sido contactada pelo jornalista e escritor Joaquim Vieira que lhe enviou os frames do filme. Na altura, analisou-os com uma lupa e tem a certeza não é Pessoa. "Nos anos 20, eram todos muito parecidos, a mesma roupa, bigode. Mas o meu tio sem óculos e com bengala não bate certo."

Manuela Nogueira acrescenta outro dado ao debate: não imaginava o tio interessado num Festival de Flores. "Ele raramente viajava, deslocava-se muito pouco e não me parece que o tenha feito para ir ver uma exposição dessas." A única coisa que parece concordar é quanto ao argumento da altura. "O meu tio era alto e junto a Régio, que penso teria um metro e meio, pareceria ainda maior."

Os investigadores pessoanos continuam a acreditar que poderá ser Pessoa e defendem que a bengala podia ser uma moda da altura e quanto à falta de óculos, as imagens não são claras. O próximo passo seria ampliar os frames. As dúvidas permanecem, mas teria bastado que Manoel de Oliveira em 1926 parasse para perguntar ou trocar dois dedos de prosa com Pessoa para sabermos se se trata de um documento histórico ou não.

 

Veja aqui o vídeo



Qual a sua reacção:
Tem mais informações sobre esta notícia?
Conte a sua história. Seja um iRepórter.

Notícia relacionada

Close