Do último relatório e contas do BCP, os jornais realçaram que seis clientes devem 3,5 mil milhões de euros ao banco, correspondentes a 80% do valor do BCP em bolsa, que é 4,3 mil milhões. Para interpretar este número, é preciso pensar um pouco.
Se a carteira de empréstimos de um banco está muito concentrada nalguns clientes, o banco está exposto a risco de falência se apenas um dos devedores entrar em incumprimento. Contudo, para aferir este risco, deve--se dividir os 3,5 mil milhões pelo valor total da carteira de empréstimos do BCP, 74 mil milhões, e não pelo valor em bolsa. A concentração de empréstimos nos seis clientes é só 5%, um número que não parece excessivo.
Outra forma de olhar para os números é dividir o valor em bolsa do banco pela carteira de empréstimos: 4,3/74=6%. Logo, por cada euro que o BCP empresta, só 6 cêntimos são do banco. Os outros 94 cêntimos foram emprestados ao BCP, por exemplo pelas pessoas que têm depósitos no banco. Para a maior parte das empresas, este número seria um susto. Implica que se o BCP tiver perdas de apenas 6% nos seus empréstimos, o banco vai à falência, não valendo sequer um euro. (Claro que também implica que ganhos de apenas 6% duplicam o investimento dos accionistas.) Chama-se "alavancagem" a este fenómeno responsável pela falência de muitas instituições financeiras nos últimos dois anos. Os 6% do BCP estão em linha com o normal no sistema bancário. No entanto, como a crise financeira mostrou, normalidade não quer dizer tranquilidade.
Se eu fosse accionista ou regulador do BCP, seria esta coincidência entre accionistas e devedores que me preocuparia. Há dezenas de formas de desviar dinheiro do banco para os seus accionistas/devedores que são difíceis de detectar. Recentemente, as investigações à falência dos bancos na Islândia descobriram muitos túneis criados por cinco ou seis accionistas/devedores especiais.
Professor de Economia, Universidade de Columbia




Rating: 0.0
Actividade em ionline