Francisco Sá Carneiro devia ficar confuso e surpreendido se voltasse hoje a Portugal. Confuso e surpreendido ao ver que o país e a democracia pouco mudaram no essencial, 29 anos depois da sua morte em Camarate, a 4 de Dezembro de 1980, apesar da imensa evolução tecnológica, dos telemóveis aos blogues. A confusão e a surpresa de Sá Carneiro aumentariam ao constatar que os dirigentes máximos de dois dos três maiores partidos são antigos militantes da Juventude Social Democrata e nenhum deles é presidente do PSD. José Sócrates como Paulo Portas tiveram passagens políticas pela JSD e o número pode crescer se o único candidato social-democrata que demonstrou até agora vontade de ser líder, Pedro Passos Coelho, vier a ser eleito nas próximas directas em 2010.
O fundador da Aliança Democrática continuaria surpreendido se fosse informado de que Portugal ultrapassou pela primeira vez na história os 10% de desempregados e irá ter um défice de mais de 8%, semelhante aos dos piores anos do seu tempo de combate por um "projecto de liberdade".
Francisco Sá Carneiro poderia estranhar ainda o esquizofrénico clima de intriga política que envolve a figura do primeiro-ministro: José Sócrates torna-se cada vez menos parte da solução e é cada vez mais o problema do PS e do país. Enquanto os portugueses se preocupam com o emprego e a sobrevivência, os eleitos ocupam-se com escutas telefónicas e falam de "espionagem política". Sá Carneiro ouviria dirigentes do partido no poder afirmar que a líder do maior partido da oposição teve acesso a escutas judiciais - e os jornais a anunciar que os principais arguidos do processo Face Oculta "terão sido" avisados de que estavam a ser escutados.
O antigo líder do PPD/PSD - uma sigla reservada nos dias que correm a apoiantes do seu ex-assessor jurídico Pedro Santana Lopes - não deixaria, por fim, de ler com atenção o apelo veemente do velho adversário Mário Soares, publicado esta semana, a favor da estabilidade política e contra a "esquerda radical" representada no Parlamento pelo PCP e pelo Bloco de Esquerda. Inspirado no cenário de 1983, três anos depois do seu desaparecimento, Sá Carneiro poderia suspeitar do regresso de um governo do Bloco Central, em nome de um qualquer "pacto de emergência", sem Manuela Ferreira Leite e porventura já sem José Sócrates.
Ou talvez não.
Editor Zoom




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