Há 5 mil dias à espera de quê?

por Rosa Ramos, Publicado em 03 de Dezembro de 2009   
Ao fim de 15 anos, ainda se lembra: irmãos roubaram-lhe a herança. O protesto é diário das 7h00 às 16h30. Folga feriados, sábados e domingos
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Já estão no "Livro do Guinness". Florindo e Flora Beja completaram ontem 5 mil dias de protesto à porta da Procuradoria-Geral da República. Em Março de 2010 vão assinalar 15 anos seguidos de greve. Tempo de sobra para o casal, casado há 45 anos, programar minuciosamente os trâmites em que se desenrola o protesto. A saber: não protestam aos fins-de-semana nem feriados. Nos dias de semana, saem de casa já com o pequeno-almoço tomado e às sete horas montam arraiais na PGR, acompanhados de uma marmita com sandes e sumos. A manifestação termina sempre às 16h30.

Florindo já perdeu a conta às vezes que contou a história que o leva, há quase 15 anos, ao Largo do Rato. Um dia precisou de arranjar um documento e descobriu que estava sepultado no cemitério de Aljustrel desde 1964. Uma morte causada, garante, pelos dois irmãos - um é juiz-desembargador, outro notário em Lisboa. Pelo meio, casaram a viúva com outro homem e depois mataram-na e sepultaram-na em parte incerta. O mesmo destino teve a filha do casal. Além disso, Florindo diz que aparecia nos documentos como nascido em Benguela e morto na Índia. Ele, que nasceu em Nelas. Tudo, para se apropriarem dos seus bens: uma "herança de um prédio avaliado em mais de oito mil contos".

Florindo, 74 anos, até já foi alvo de um diagnóstico psiquiátrico. O casal sofre, segundo os médicos, de "folie a deux" - delírio a dois. O protesto já lhes rendeu alguns dissabores: foram presos mais de 30 vezes. Em contrapartida, tornaram--se habitués da PGR. Todos os funcionários lhes dizem "bom dia" e já privaram com três procuradores: Cunha Rodrigues, Souto Moura e Pinto Monteiro. Mesmo assim, nunca obtiveram resposta. Florindo não desiste: "Se for preciso, ficamos aqui até à morte", confessou ao i.

Com Augusto Freitas de Sousa



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