O especialista em clima Filipe Duarte Santos diz que o caso Climategate está a mudar a forma como se faz ciência
Passaram duas semanas desde que os emails roubados dos servidores da Unidade de Investigação Climática da Universidade (CRU) de East Anglia, no Reino Unido, foram divulgados na internet, mas estes continuam a alimentar uma polémica sem precedentes em torno das alterações climáticas. A Conferência de Copenhaga, na próxima semana, não vai ser afectada, garantem diferentes especialistas ao
i, mas a opinião pública já foi: o aquecimento global, provocado por emissões de gases de efeito de estufa cada vez mais intensas, foi posto em causa nos
media, e as justificações dos investigadores envolvidos no caso não calaram os cépticos.
Filipe Duarte Santos, professor da Universidade de Lisboa e um dos maiores especialistas nacionais em clima, recusa que o caso venha a ter repercussões nas negociações de Copenhaga. "A ciência não é afectada", diz ao
i. Porém, nas suas palavras, a situação em que se viram envolvidos investigadores de topo e um centro de investigação responsável pela grande maioria dos dados climáticos no Reino Unido, é "deplorável". "Os emails entre cientistas devem ser públicos. Deve haver uma transparência total." Filipe Duarte Santos diz que a principal consequência do caso, que recebeu o nome de Climategate depois de inicialmente ter sido omitido por órgãos de comunicação como o "The New York Times" ou a BBC, passa por uma mudança urgente na forma como se encara a ciência: "Os dados climáticos devem ser acessíveis. A ciência é algo repetível. Uma conclusão deve poder ser avaliada em qualquer centro de investigação, sem limitações", sublinha. Quanto à possibilidade de as alterações climáticas em curso serem provocadas pela acção humana, com o aumento das emissões de CO
2, há muito mais dados para além da informação que poderá ou não ter sido manipulada no Reino Unido - as investigações ainda estão em curso. "Os sinais [do aquecimento global ] são claríssimos", sublinha o investigador português.
"Ciência imberbe" Sem desfecho à vista, o caso Climategate continua quente. Rui G. Moura, especialista em climatologia e autor do blogue mitos-climaticos.blogspot.com é uma das vozes críticas em Portugal. "Manipularam revistas científicas, ameaçaram directores e dirigentes de universidades. As temperaturas desde 1998 estacionaram ou têm vindo a diminuir. Isto não é explicado pela tese deles", acusa. "A única coisa de que se tem a certeza é que o dióxido de carbono é um gás com efeito de estufa. Esta mentira consegue sobreviver porque a climatologia é uma ciência imberbe", adianta. Defende que as alterações climáticas em curso fazem parte de uma variação natural do clima, que tem a ver com o facto de estarmos no fim de um período interglacial - eras regulares que duram 10 mil anos. "Não há nada a fazer. Devem tomar-se medidas de adaptação e não estar a gastar-se dinheiro inutilmente [em negociações]", diz.
A dúvida Mais de mil emails foram postos a circular na internet com conversas entre cientistas de renome, como Phil Jones, director da Unidade de Investigação Climática da Universidade de East Anglia ou Michael Mann, climatologista americano, autor de mais de 80 artigos científicos. Nos documentos lêem-se críticas a trabalhos de cientistas rotulados como "cépticos", que põem em causa a actual tese sobre as alterações climáticas. Os comentários sugerem que estes cientistas deviam ser afastados e que se intervenha na informação na comunicação social. Há, contudo, duas referências consideradas mais preocupantes pelos críticos. A primeira é que Phil Jones teria incentivado o Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas (IPCC) a excluir do relatório de 2007 (que pedia metas de 50% a 85% na redução das emissões de gases com efeitos de estufa até 2050) artigos científicos que contrariavam a tese do aquecimento global. Pede-se ainda que sejam apagados emails relacionados com este pedido, para evitar a sua revelação de acordo com a legislação inglesa.
A segunda descreve uma manipulação num gráfico para "esconder o declínio" da temperatura do planeta desde o final da década de 90. Terão sido misturados dados reconstrutivos - obtidos, por exemplo, através de dendrologia, uma técnica que relaciona a largura dos anéis das árvores com o clima de um terminado ano - com temperaturas actuais
Rajendra Pachauri, director do IPCC, disse já que não existe qualquer possibilidade de um grupo de cientistas ter interferido no documento das Nações Unidas. "As pessoas devem ser discretas. Tudo o que escrevemos, mesmo em privado, pode tornar-se público", comentou. "Se alguém tentasse uma coisas destas num encontro do IPCC seria devorado." Phil Jones, o principal protagonista da polémica - que pediu a suspensão de funções enquanto o caso estiver a ser investigado - garante que nenhum email esconde qualquer tentativa de manipulação: "O mais importante é que a CRU continue a sua investigação de ponta com o menos interrupções e distracções possível", disse na terça-feira, quando se afastou do cargo.
"Devem tomar-se medidas de adaptação e não estar-se a gastar dinheiro inutilmente [em negociações]. A climatologia é uma ciência imberbe"
Rui G. Moura Especialista em climatologia
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