Como o país atravessa um momento depressivo, abre-se mais espaço para o discurso apocalíptico e para a profecia do fim. Há uma série de novos profetas, enquanto os mais velhos e respeitados - Vasco Pulido Valente, António Barreto - batem recordes de audiências. O último declarou solenemente ao i, na semana passada, que "Portugal está à beira da irrelevância, talvez do desaparecimento". Mas esqueceu-se de substanciar pelo menos a segunda parte da sua afirmação: o que significa tal "desaparecimento"? Desaparecer do mapa? Deixar de ser um estado independente? Mas de que forma?
Ao contrário do que os nossos profetas do fim gostam de sugerir - obcecados com a pretensa originalidade do seu oráculo -, este registo é recorrente noutras paragens. Quando, nos Estados Unidos, alguém constrói um discurso sobre a decadência inexorável da nação americana, tem garantida a venda de milhares de livros. Se, por exemplo em França, alguém fustiga a República e anuncia a débâcle final, facilmente se torna ícone da moda.
No entanto, se este é o fundo cultural no qual ganham sentido as profecias do fim, o enquadramento político também ajuda. As ditaduras tendem a esconder ou anular o pessimismo histórico. Conferem uma falsa segurança baseada na repressão das opiniões que perturbem a tranquilidade social. Pelo contrário, as democracias, ao protegerem a liberdade de expressão, estendem o tapete vermelho aos profetas teleológicos.
Porém, este discurso nada tem de objectivo. Não se inscreve no domínio do racional mas antes na esfera do emotivo. Há aqui uma perversão que convém assinalar. Quem protagoniza este discurso usa a sua respeitabilidade académica para fazer profecias que apelam à emoção e não à razão - mas ao saltar da análise sociológica para o registo profético, o seu discurso passa a valer tanto como o da astróloga Maya.
Professor universitário de Teoria Política




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