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Exclusivo i Fernando Pessoa: Poe e a Loucura Metódica

Publicado em 03 de Dezembro de 2009   
Mais um texto de uma série de 11 inéditos de Fernando Pessoa que o i vai publicar todas as semanas até 31 de Dezembro
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Pessoa tomou contacto com a obra de Edgar Allan Poe (1809-1849) quando adolescente e aos quinze anos escolheu "The Choice Works of E. A. Poe" entre os livros de um prémio que ganhou na admissão à Universidade do Cabo (África do Sul). Os títulos da juvenilia poética escritos em inglês sob o nome de Alexander Search - "Insomnia", "The Unconscious Corpse" ou "The Maiden" - evocam os enterrados vivos dos contos de Poe, as donzelas que assombram os seus poemas ou os "delírios" que dizia surgirem-lhe entre a vigília e o sono. No inédito de Pessoa é patente o fascínio sobre a máquina da loucura operante em Poe. Escrutinando as rasuras, detecta-se, no segundo parágrafo, uma insistência no adjectivo "delirante(s)", repetido três vezes, duas delas substituídas por "hallucinante" e "desvairados".

Na margem esquerda da folha, surge a lápis a reflexão: "Ha methodo nesta loucura", seguida de duas palavras de difícil decifração. A polaridade entre o "methodo" e a "loucura" subjaz o final do presente texto, de onde ressalta a necessidade de um "fio condutor lógico" - uma ideia central no pensamento de Pessoa sobre o génio, como atestam os "Escritos sobre Génio e Loucura" reunidos por Jerónimo Pizarro (Lisboa: INCM, 2006). Algumas dessas notas contêm resistência à figura de Poe, com hesitação em atribuir-lhe génio ou talento, bem como o menosprezo pela formalidade de um raciocínio tendente a "falsear" - algo imputável por Pessoa à composição do famoso poema "O Corvo" (pp. 427-428).

Num texto publicado em vida como introdução a uma série de traduções de contos de Poe, cerca de 1923-1924, pela editora Delta de Lisboa, Pessoa concede ao prosador a superioridade absoluta nos "contos de raciocinio", mas sugere que "na imaginação visionadora do estranho" terá sido superado por Sá Carneiro... O presente texto contém informações em tom semelhante; porém, insiste na mestria dos poemas e surge numa folha cujo verso é dedicado à colecção "Anthologia", projecto a que Pessoa se referiu numa carta de 20 de Junho de 1923, revelada por Teresa Rita Lopes em "Pessoa Inédito" (Lisboa: Horizonte, 1993, pp. 222-223). Nela, o poeta dizia ter quase prontos "os principaes poemas de Edgar Poe". Esse volume nunca viu a luz, e Pessoa acabaria por publicar só três traduções de Poe, na revista "Athena" em 1924-1925.

Margarida Vale de Gato, Universidade de Lisboa



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