Entrevista de vida
Júlio Isidro. "Fiz o primeiro contrato com a RTP em 2007"
por Luís Leal Miranda, Publicado em 01 de Dezembro de 2009
O apresentador explica a fórmula de sucesso de cinco décadas no ar: tornar-se um clássico. A lamentar, só não ter sido "mais vedeta"
Júlio Isidro recebe-nos na sua loja de aeromodelismo, em Algés, um negócio familiar e tradicional - dois adjectivos que também definem o apresentador. A carreira de Júlio Isidro confunde-se com a história da televisão em Portugal, e está longe de ver os créditos finais rolarem antes das letras "Fim".
A 16 de Janeiro o Júlio Isidro faz 50 anos de carreira. Como se explica este fenómeno de longevidade e popularidade?
Percebi a determinada altura que neste negócio não há nada melhor do que ser uma personagem: eu tinha de ser igual a mim próprio. É possível dizer "ele é sempre o mesmo" e fazê--lo com desprezo ou admiração. Sempre fui coerente e hoje em dia sou um clássico - como um blazer azul de botões amarelos e sapatos de camurça Church's.
E como se define esse personagem que criou?
Sou justificadamente o entertainer da família. Consensual, marcado por uma grande humanidade e próximo das pessoas. Já numa entrevista dada por mim, em 1981, ao "Sete", quando estava a estoirar o "Passeio dos Alegres", disse: "Vou fazer sempre isto tudo mas nunca vou andar aos pulos e cambalhotas." Hoje tenho menos coluna vertebral para isto, não vale a pena estragar as minhas potenciais hérnias discais a fazer essas coisas que não são o meu estilo.
O seu nome já ganhou um significado próprio. Diz-se "eu fui o Júlio Isidro deste ou daquele" quando alguém ajuda a promover um músico.
Já dei por isso, e é dos maiores elogios que me podem fazer. Já ouvi até gente dizer coisas como "agora o que me fazia jeito era um Júlio Isidro para relançar a minha carreira". A prova de que essa expressão faz sentido é a quantidade de discos e cartas que recebo todos os dias na esperança de que eu um dia os promova. Chamo- -lhes os "CD da esperança".
E quem foi o Júlio Isidro do Júlio Isidro?
Não foi ninguém. Foi, quando muito, um acaso. Fui a um casting - naquela altura chamavam-lhes "provas para apresentadores" - e foram buscar uns quantos às escolas. Eu fui nomeado pela minha escola porque apresentava às vezes as cantigas do orfeão do Liceu Camões. O padre chamava-me e dizia "oh pechinchinho" - ele tratava-nos a todos por esse nome -, "anda aí anunciar a próxima música". A essas audições foram 300 e tal miúdos, depois ficaram cinco ou seis. Eu fui o escolhido.
Porquê o Júlio?
Ainda hoje estou para saber. Não era nenhum nome sonante na praça, ninguém sabia quem era a minha família.
Olhando para o Júlio Isidro e a típica figura da TV, poder- -se-ia dizer que o Júlio não tem perfil de apresentador - e a palavra perfil pode ser interpretada de duas maneiras.
Hoje em dia na televisão temos o culto da estética, por um lado, e as pessoas que se impõem pela qualidade, pelo outro. O Anthony Hopkins é bonito? Mas é um grande actor. Neste tempo em que a qualidade da apresentadora é medida de baixo para cima, a mim podem-me medir de cima para baixo, da esquerda para a direita, que não vão encontrar nada de mais.
Sentiu a falta de um palmo
de cara?
Nunca, apesar de esteticamente não ser uma pessoa que possa receber muitas cartas de amor.
Mas recebeu?
Muitas. Agora já não porque deixei de ser solteirão impenitente há 11 anos. Adoro estar casado, adoro a minha mulher e as minhas filhas. Era incapaz de ter um flirt mesmo que fosse apenas por carta.
E nos primeiros tempos na RTP, era muito assediado?
Nada mesmo. Quem era muito solicitado era o João Lobo Antunes, o meu colega. Recebia muitas cartas porque era muito bem parecido. Eu tinha imensa pena, mas passados uns tempos comecei também a receber correspondência de admiradoras. Só passados uns anos vim a saber que eram as minhas irmãs a enviar essas cartas.
Ainda fica nervoso antes de gravar?
Sempre tive um enorme sentimento de distância em relação a este trabalho. E sempre que acabo de gravar as pessoas ficam espantadas - faço tudo à primeira e sem repetições - e dizem "mas já está?". Eu respondo que sim, que isto não é a minha vida e tenho mais que fazer. É assim todas as noites.
O seu círculo de amigos é todo da televisão?
Nem pensar. Passar o tempo inteiro a falar sobre TV e rádio com gente do trabalho, isso não. Se nós formos a ver muito claramente, estas amizades são todas muito coladas a cuspo, muito baseadas em interesses. Toda a gente diz muito bem dos colegas mas na altura de algum cair ninguém vai lá pôr a mão - pelo contrário, até vão pôr o pé no pescoço, se for preciso.
Mas zangou-se alguma vez?
Nesta carreira toda nunca me dei mal com nenhum colega, mas também não almoço e janto todos os dias com eles. Não faço da minha profissão um clã.
Teve grandes desilusões nestas cinco décadas?
Sim, mas guardarei isso na minha memória. É evidente que o sucesso que fui tendo foi a pouco e pouco sendo imperdoável para algumas pessoas.
Porquê?
O Jorge de Sena, grande poeta, dizia isto: "O português vive da conspiração permanente." O sucesso hoje incomoda sempre quem não consegue pôr as mãos na massa. As coisas que me aconteceram ao longo da carreira foram sempre com muita naturalidade. Aquilo que para os outros era um grande sucesso nem sequer me envaidecia um bocadinho. Há um pensamento francês que reza assim: "Nos fracassos dos nossos melhores amigos há sempre qualquer coisa que não nos desagrada." Aquela coisa do "eh pá, que desgraça que te está a acontecer". Muitas vezes quem diz isso está de alguma maneira satisfeito com o insucesso do outro.
Quando teve noção desse sucesso?
Na altura do programa de rádio "A Febre de Sábado à Noite", quem é que conseguiu meter 50 mil pessoas no estádio para ouvir e ver um programa de rádio? Para "ouver" uma coisa das telefonias e pagar 50 escudos? Fiz eu. Fiz isso e fiz muitas vezes.
O que faz do Júlio Isidro um bom apresentador?
Uma das coisas importantes é o apresentador não ser o protagonista. É como o peão de brega na tourada, anda ali a dar uns capotazos para aquilo andar. O apresentador é um meio e não um fim - é exactamente por isso que ainda não cheguei ao fim.
Lembra-se da primeira vez que entrou num estúdio de televisão?
Lembro-me de estar a subir a rampa que dava para os estúdios da RTP, uma subida de basalto, muito íngreme. Passa por mim um Fiat azul-escuro conduzido pelo grande Henrique Mendes. Ele parou e perguntou "Vai para cima? Entre", ele que não me conhecia de lado nenhum. Assim entrei nos estúdios da RTP pelas mãos de uma vedeta. Tinha 15 anos e um casaco emprestado de um primo meu, que na altura eu não tinha nada de jeito para vestir. Ainda me lembro, era um blazer azul escuro com botões amarelos. Hoje tenho dois ou três.
E a estreia, no "Programa Juvenil"?
Sei que nesse programa apresentei e cantei porque foi lá actuar o Orfeão do Liceu. Quando terminou fui da Alameda das Linhas de Torres, ao pé do Estádio de Alvalade, até ao cinema Roma, na Avenida de Roma, onde agora é o Fórum Lisboa. Fui ver um filme chamado "Música na Europa", uma espécie de documentário sobre os grandes espectáculos.
Passou grande parte da sua carreira na RTP. Como o tratam lá?
Com muito carinho, sobretudo pelas pessoas que não são do meu tempo - porque já não está lá ninguém. As pessoas da minha idade, e até mais velhas, param e gostam de falar comigo. Vou à sala de edição e os tipos mais novos começam por ficar intimidados mas às tantas já estão à vontade e confiam em mim. Sabem que está ali alguém que sabe o que quer. Mas depois há gente que dialoga comigo e a quem me dá vontade de mandar o meu currículo, a ver se essa gente tem calma e não me vem rezar o padre--nosso - porque eu estou habituado a rezar missas há muitos anos.
Não tem privilégios?
Não tenho nem os peço. Repare fui convidado para fazer as Marchas de Lisboa na RTP, para fazer de repórter no meio da avenida, não era pivô, era repórter. Acha que fui puxar dos meus galões e dizer "ah não, eu não faço isto". Nem pensar. Sabia que era um papel importante e necessário. Não me importo nada de ser aquele jogador que entra só para os últimos 20 minutos.
E contrato com a RTP, já tem?
Durante 47 anos trabalhei programa a programa, em séries de 13 programas. Andei esse tempo todo a trabalhar a três meses. A outra administração fez um contrato de dois anos comigo, em 2007. Foi a primeira vez que tive um vínculo de longa duração a esta casa.
Como é viver com essa perspectiva das 13 semanas?
É simples porque sou extremamente poupado. Sempre tive a noção de que este trabalho era efémero e teria de ter muito cuidado - mas agora dou comigo em vésperas de fazer 50 anos de TV e pergunto-me "como é que isto aconteceu?". Trabalhei sempre estupidamente e nunca disse que não a nenhum trabalho. Estive muitas vezes na mó de baixo, muitas vezes sem me chamarem, mas saí sempre por cima.
Nunca foi de mostrar grandes sinais de riqueza.
Eu vejo fotos nas revistas de gente que faz umas coisas nas televisões ao lado de grandes carros e não percebo como é que eles conseguem. Eu vou fazer 50 anos de televisão e não tenho um Jaguar. Gostava muito mas não tenho. Não vou dizer que nunca tive dinheiro, crédito teria de certeza, mas a minha riqueza são as minhas filhas e é nelas que tenho de pensar.
Nunca teve excentricidades de estrela de TV?
Ainda há pouco tempo estava a comprar uns tarecos lá para casa e interessei-me por um tareco um pouco mais caro e pensei "tenho direito a uma loucura". E estamos a falar de uma coisa que nem era assim tão cara.
Os seus primeiros tempos devem ter sido mais difíceis.
Houve uma vez que trabalhei na rádio 46 horas seguidas - porque ganhava à hora. Quando chegavam as férias, os meus colegas pediam ao colega que ganhava à hora que lhes fizesse as férias. Fazia seis horas de noticiários, depois seis horas de continuidade, e depois mais noticiários, sempre a fazer as contas: 25 escudos à hora, doze cêntimos e meio. Levei pasta de dentes, lâmina de barbear e ficava lá.
Acha que nos últimos tempos esteve um pouco esquecido?
Já houve várias cabeças a acharem "este não, que este está gasto" ou "este não, que este sabe mais que eu". Mas agora não. Faço o "Quarto Crescente" na RTP, fui convidado para fazer o "Verão Total" durante oito dias seguidos, estou satisfeito. Já perdi foi as esperanças de ter um programa de grande produção.
Sente-se realizado com "Quarto Crescente"?
Para ser sincero, não. É um programa muito limpinho e muito digno, que está dentro daquilo que eu penso que deve ser a programação de uma estação de serviço público, mas gostava de ter mais meios. O programa tem muitos elogios e só um tipo de reclamação: porquê àquela hora? Tento ver o programa muitas vezes, mas adormeço.
A palavra "reforma" vem-lhe muitas vezes à cabeça?
Sim, mas abomino essa expressão: reformado. Essa palavra subentende a inutilidade. Subentende ainda a compensação magra daquilo que fiz durante a vida. Verdi escreveu a "Aida" com mais de 70 anos, o Lévi-Strauss morreu agora com mais de 100 anos e pensava como pensava, não me venham com essa história da reforma. Quem tiver vontade de viver tem de ter vontade de produzir.
A pergunta é: até quando pensa fazer televisão?
Não tenho prazo. O que tenho é a convicção de que estou a perder o privilégio de ver as minhas duas filhotas crescerem. Levá- -las à escola, dar-lhes um beijinho de manhã ou ouvi-las dizer coisas fascinantes e eu não conviver mais - e poderia, se trabalhasse menos - está-me a custar um bocadinho. Se achar que abandonar o trabalho é essencial para as ajudar a crescer, bem, então não hesito.
Olhando para o seu hobby, o aeromodelismo, pergunto como terá sido a sua infância.
Muito criativa, em que construi sozinho a minha felicidade. Brincava com kits de ciência, projectores de cinema, bricolage. Fiz teatros lá em casa com panos, escrevi peças, etc. Estive sempre a mexer e tive um pai com uma elevadíssima cultura a quem devo a forma escorreita com que falo em português: era formado em Filologia Clássica e corrigia-me constantemente.
Olhando para trás, arrepende-se de alguma coisa?
Tenho pena de não ter conhecido a minha mulher mais cedo. E vou explicar porquê. Ela está sempre a dizer "Júlio, não lhes dês tanta confiança". Acho que fui porreiro de mais. Houve alturas em que devia ter sido mais vedeta.
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Artigo: Júlio Isidro. "Fiz o primeiro contrato com a RTP em 2007"
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