Quem palmilha as ruas estreitas do centro histórico de Braga dificilmente imagina que entre igrejas e lojas de arte sacra se esconde um espaço tão profano quanto original e cosmopolita. No Cabeleireiro e Espaço Cultural Pedro Remy não há lugar para coisas óbvias. Ali, um simples corte de cabelo pode facilmente transformar-se numa experiência invulgar: além de exposições de fotografia e pintura, o espaço é palco de concertos de jazz, peças de teatro e apresentação de livros. Estranho? Nem por isso, o segredo está no cabeleireiro que cresceu a ouvir Charlie Parker.
Se gosta de folhear uma revista cor-de-rosa enquanto corta o cabelo, então é melhor não se aventurar a entrar no n.o 52 da Rua Gualdim Pais, em pleno coração do centro histórico de Braga. Na melhor das hipóteses vai encontrar revistas de design e arquitectura. Ou livros, de Saramago a Umberto Eco, que podem ser requisitados e levados para casa, como se de uma biblioteca se tratasse.
"Temos tido o cuidado de trocar o habitual momento de espera de cabeleireiro das revistas comerciais por uma secção de livros de design e arquitectura. Muitos dos nossos clientes são pessoas ligadas às artes, que gostam de nos trazer boas leituras ou discos", explica o cabeleireiro Pedro Remy, responsável também pela criação de uma das muitas inovações do espaço: um espelho digital. Lá iremos.
Parede giratória
A ideia de criar um cabeleireiro, onde além do tratamento da imagem se oferece a arte aos clientes, surgiu de forma espontânea. "Foi apenas a junção de duas partes de mim muito importantes: o profissional dos cabelos e o apaixonado pelas artes." Em casa, continua, "fomos todos educados com bons discos por perto, do Charlie Parker, Elis Regina, Chico Buarque. Com cinco ou seis anos já ouvíamos aquilo."
Pedro Remy até começou por se destacar na música, embora diga que as duas paixões surgiram quase ao mesmo tempo. Aos 16 anos já trabalhava em salões tipicamente masculinos, enquanto a música lhe preenchia os tempos livres. Dedicou--se primeiro à guitarra, depois ao piano.
"Não posso dizer que fui músico profissional, mas durante a década de 90 toquei em vários cafés-concerto do país e até da vizinha Espanha. Cheguei a fazer abertura de alguns artistas conhecidos, como Rui Veloso, Jorge Palma ou Paulo Gonzo."
Apesar de hoje, aos 36 anos, ter um estúdio caseiro - mais utilizado pelos amigos do que por ele, confessa - é no papel de promotor cultural que o cabeleireiro tem vindo a notabilizar--se. Há muito que é conhecido pela participação que tem no circuito artístico da cidade. Tal como o pai, Remy foi sempre um associativista convicto. Foi filiado no PCP e esteve na fundação do núcleo de Braga do Partido Ecologista Os Verdes. No fundo, diz, "sempre fui um promotor cultural".
E se aos poucos a carreira musical foi perdendo importância, o cabeleireiro encontrou na galeria uma forma de se manter ligado às artes. Quando a noite cai, o espaço ganha nova vida: através de uma parede giratória, a sala principal multiplica-se para receber concertos de jazz. Muitos destes espectáculos são exclusivos no nosso país, como aconteceu com o trio nova iorquino de Russ Lossing ou com o quinteto do brasileiro Paulinho Braga, baterista que acompanhou músicos como Elis Regina e Tom Jobim. Em noites de concerto, a galeria parece pequena para tanta gente. "Temos um público muito fiel ao jazz", justifica o cabeleireiro.
Espelho digital
Quem cruza as portas da entrada, facilmente se envolve com a estética do espaço, inaugurado em 2002. As cadeiras de barbearia à antiga podem até não combinar com o design minimalista, mas um olhar mais atento será suficiente para captar a essência do local: um encontro entre o passado, o presente e o futuro.
À entrada somos surpreendidos por um corredor com telas cuidadosamente alinhadas, paredes--meias com um pequeno bar e uma biblioteca. Lá do fundo chega-nos uma luz que inunda o espaço e que parece brotar naturalmente das duas janelas que dão acesso ao pátio. O contraste com o exterior é evidente mas harmonioso: lá fora conta-se a história de uma cidade com mais de dois mil anos, onde são visíveis os vestígios da Bracara Augusta - não estivéssemos nós no centro histórico, ao lado da Sé Catedral.
O espaço é, no entanto, muito procurado por jovens: "Criámos um conceito dedicado à geração mais urbana e cosmopolita, que utiliza a nossa linguagem." Prova disso é a sala Work in Future, inaugurada no ano passado. Uma área inovadora, onde o espelho tradicional conhece o seu sucessor digital: o invento, criado e patenteado pelo próprio Remy, funciona com duas webcams, através das quais o cliente pode assistir ao corte de cabelo enquanto joga playstation, vê documentários ou concertos num monitor LCD. "Atrai muitos jovens que habitualmente detestam ir ao cabeleireiro. Agora até vêm mais cedo para poder usufruir desta tecnologia", brinca.
Um cliente muito especial
Tanta inovação e originalidade deram fama ao espaço, que acabou por romper as fronteiras da cidade dos arcebispos. No ano passado, quando a Selecção Nacional de futebol passou em Braga, Remy recebeu um telefonema muito especial: Cristiano Ronaldo. "Queria que lhe cortasse o cabelo", recorda. "Preparei-me, claro. Estive horas na net a pesquisar sobre os seus gostos e como tinham sido os penteados dos últimos anos. Afinal, ia tratar da cabeça de um goleador." Ronaldo, imprevisível, surpreendeu-o: "Disse-me para fazer o que achasse melhor." E assim o cabeleireiro optou por um estilo "British" muito "à Coldplay". "Com um lado mais Barcelona, inacabado. Irreverente mas ao mesmo tempo com um ar responsável. É o capitão."




Rating: 0.0
Actividade em ionline